Crônica de Paulinho Kokay
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Andava meio cansado. Sempre buscou ter das pessoas qualquer atitude que demonstrasse aprovação. Precisava, literalmente, ser reconhecido como alguém especial. Por conta disso, hoje sentia o peso das decisões tomadas. Está com 65 anos e sua pele já possui os desenhos que o tempo lhe presenteou. Lembrou-se das pessoas com as quais conviveu e sentiu saudades. Cada uma teve um significado que lhe fez sentir-se mais humano. Agora, sente que não poderia ser mais humano, pois, está cada vez mais próximo da morte. A sensação de que a brincadeira está acabando, que o recreio já vai dar lugar a um possível nada. Está frente ao espelho do banheiro que parece refletir muito mais do que a simples imagem de um homem velho e sozinho. Sim, está sozinho, como sempre esteve. Mesmo os amores, as paixões, foram disfarces para a solidão que o acompanhou desde o útero de sua mãe.
De repente, lhe vem a memória a imagem de Vera. Uma mulher doce que conhecera há alguns anos. Para Todas as vezes que a reencontrava, lembrava ele, era como se fosse a primeira vez. Encantamento e admiração, paciência, cuidado. Ele realmente gostara dela. Não saberia dizer se era amor, mas por vezes, na falta de um melhor conceito, acariciava sua alma com alguns “eu te amo”. Constatou que sempre foi fácil para ele dizer ”eu te amo”, para todas as mulheres. Mas para Vera, ele não conseguia disfarçar o incômodo por dizer-lhe. Lembrou que um dia, quando acordou de um sono no fim da tarde, olhou e viu que Vera o olhava com admiração. Ficou meio sem jeito e lhe disse: “Eu gosto muito de você!!” Vera chorou. Para ela aquelas palavras eram sinal de um sentimento verdadeiro e real. Quando saiu de sua memória, percebeu no reflexo do espelho que uma lágrima solitária saia de seus olhos. Pensou: “Onda andaria Vera?”. “Casou-se?”. “Que seja feliz.” Um dia Vera livrou-se da paciência e foi embora, pra nunca mais. Até hoje não teve mais notícia nenhuma. Ela estaria com mais ou menos 50 anos. Ele a perdera e realmente sentia-se só. Saiu do banheiro, vestiu-se e desceu no elevador em silêncio. Respondeu a algumas saudações de vizinhos com um leve sorriso. Caminhava pela rua até chegar a praça do bairro, onde costumava sentar-se e observar o movimento. Naquele dia, só conseguia ver juventude. A mesma juventude que um dia “ousou” deixá-lo. Via os casais de jovens sorrindo, encantados, apaixonados. Pensava: “Não sabem nada ainda esses moços… um dia vão perceber que hoje não sabem anda da vida.” Ao mesmo tempo, admirava-os e desejava que todos eles fossem aquilo que eram de fato: jovens! Concluiu que a velhice consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão e que ela é uma tirania que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude. Quase sem fôlego, pela vontade de chorar, viu uma criança que, ao correr, caiu e machucou o joelho. A mãe, imediatamente, correu e soprou o ”dodói”. Ele sorriu. Lembrou-se de sua mãe que fazia o mesmo. Percebeu que a vida é isso. faz parte do ciclo. E que, de alguma forma, teve o prazer de conhecer a felicidade. |

3 respostas Até agora ↓
Priscila Lima // 08/11/2009 às 21:49 |
Meus parabéns, linda a Crônica!! Você tem futuro heim!! Hhehehhehehhehehe..
Bjitos.. Xeiritos e Abracitos
Sunbeam // 08/11/2009 às 22:07 |
Fiquei pensando na Vera…tadinha…rsrsrsrs….
Teremos que lançar um livro futuramente…pensarei no título: Paulo em pensamentos, músicas e crônicas, que tal? Estudarei melhor
Abraços
blogdokokay // 09/11/2009 às 6:04 |
Estava comprando Coca Zero quando vi um senhor idoso que aparentava uns 60 e poucos anos. Chamou-me atenção que ao mesmo tempo sorria ao ver uma criança brincando, escondia uma profunda tristeza nos olhos. Viajei na maionese e escrevi essa crônica. Qualquer semelhança é mera coincidência. Obrigado pelos comentários.