FORMATURA DE PEDAGOGIA – UFAM


Ontem aconteceu no Auditório Eulálio Chaves, no Campus Universitário, a colação de grau dos formandos do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas. Tive o privilégio de ser um dos Paraninfos, juntamente com a professora Leda Brasil. Foi uma noite especial em vários aspectos. Primeiro pelo fato de, dos 131 alunos formados, 128 foram meus alunos. Outro aspecto, foi a estréia da Professora Ana Castro como vice-diretora da FACED.

Comentei com as colegas professoras que, quanto mais envelheço, mais me emociono. Estava muito emocionado ao ver cada aluno recebendo o diploma. O brilho e o orgulho nos olhos de pais, companheiros, filhos. Parabéns, meus pupilos.

Publico aqui o meu discurso, preparado com muito carinho e serenidade.

” Magnífica Reitora Professora Dr.ª Márcia Perales Mendes Silva, na pessoa de quem cumprimento os demais membros da mesa. Senhores pais, parentes, amigos e convidados. Prezados e queridos formandos do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas.

Quando fui aprovado no Concurso Público para Professor da Universidade do Amazonas, em 1994, fiz um pedido a Deus. Que na minha trajetória de professor, pelo menos uma vez eu fosse escolhido para ser paraninfo. Hoje, agradeço a Deus e a vocês pelo privilégio de ser Paraninfo de uma turma de Pedagogia da minha querida UFAM.

Colegas pedagogos. Na minha relação de 25 anos com a Universidade Federal do Amazonas, dos quais 9 como aluno e 16 como professor, ouvi belos discursos e muitas argumentações que contribuíram para o meu crescimento como pessoa e como profissional. Combatemos a opressão às minorias, lutamos pela redemocratização do país, vimos e participamos das mudanças significativas no plano político e social, no Brasil e no mundo. E chegamos ao século XXI, na era da informação, da tecnologia e das preocupações legítimas com o Meio-ambiente. Nesses anos, sempre ligado ao curso de Pedagogia e a formação dos pedagogos, pude vivenciar a relação teoria e prática de forma objetiva e qualitativa.

De tudo isso, gostaria de destacar nessa noite, não o papel social do pedagogo ou a dimensão política do trabalho pedagógico, até por acreditar que estão implícitas no que eu gostaria de dizer a vocês. Hoje, gostaria de chamar atenção diretamente para esse desafio que ora se concretiza com a conclusão do curso de graduação em Pedagogia.

O país inteiro se comoveu e se revoltou com o caso hediondo do assassinato da menina Isabella Nardoni. Uma violência brutal contra uma criança que, para nossa tristeza, é mais comum do que possamos imaginar.

Mas, além da violência e da morte física, a cada momento uma criança sofre de violência simbólica, de experiências frustrantes e de destruição de sonhos. Todos os dias, crianças deixam de ser crianças por causa de atos perversos de adultos, por irresponsabilidade ou descuido dos pais. A cada dia, pisam-se nas sementes de esperança e minam-se as perspectivas de um futuro promissor. A cada dia, crianças perdem a espontaneidade, a capacidade criativa e o sorriso poético e esperançoso, por causa de experiências de brutalidade e desafeto.

Boa parte dessas crianças vão à escola que, também para a nossa tristeza, acaba por reforçar mais ainda tudo e que dissemos anteriormente. Estão dia a dia na sala de aula, muitas vezes com comportamentos rotulados de inadequados e punidos com rigor a fim de adaptá-las ao mundo e a vida considerados normal. Boa parte dessas crianças serão alunos de vocês. Estarão convivendo diretamente e, por vezes, vocês serão a única possibilidade de afeto, esperança e de perspectiva.

Ser professor, principalmente de crianças, demanda uma qualidade fundamental, que antecede conhecimento científico, competência técnica e competência política.  A qualidade da competência humana. O saber e gostar de lidar com gente. A habilidade e o desejo de pegar na mão do aluno, através da prática pedagógica, e levá-lo a um passeio pela vida. Mostrando mundos, desvendando mistérios, plantando sonhos. Sim, nós professores somos plantadores de sonhos.

Não temos o direito de furtar a alegria de uma criança. Não temos o direito de impedir que uma criança sorria e sinta a beleza de um bom afeto. Por isso, além de educadores de crianças, precisamos ser educadores de pais, parentes e das pessoas responsáveis por essas crianças.

Lidar com pessoas é a maior riqueza de nossa profissão de professor. E essa riqueza só se torna viável para quem gosta de gente.

Minhas palavras nessa noite tão especial para todos nós vêm nessa direção. Cuidem de nossas crianças. Sejam essa semente de transformação, que vai contrária ao que vemos e acompanhamos pelos meios de comunicação. Façam de cada criança uma flor capaz de transformar o mundo. Não deixem que destruam o que temos de mais precioso em nossa vida profissional: o futuro. Vibrem com cada vitória de seus alunos, mesmo que seja muito pouco aos seus olhos, porém, é o máximo que eles podem dar de si. Sofram com as dores de seus alunos, não no sentido de reforçar a perda, mas de aprender que com ela se constituem os objetivos. Lutem por cada uma criança com a qual vocês terão o privilégio de compartilhar parte de suas vidas. Não deixem que se percam por falta de atenção.

Esse é o desafio. É a hora de vocês. Muitos já fizeram a sua parte em seu momento histórico. Com certeza, vocês aqui estão graças ao esforço de cada um de vocês, mas também, de seus pais, de seus irmãos, de seus professores, que de uma forma ou de outra, preservaram em vocês o sonho e a capacidade de sonhar.

Um dia, vocês chegavam à escola como crianças. Hoje, novamente, vocês retornam a ela para cumprir um novo papel. O papel principal na vida dessas crianças. Façam bem. Façam a transformação. Se vocês tem um coração, amem alguém especial com toda a sua força. Agora, se ele for grande, amem a todos. Doem-se a fazer o bem por aqueles que precisam e que, apesar de tudo, acreditam na escola.

Mais uma vez agradeço o carinho de vocês e a possibilidade de ter participado, mesmo que com um pinguinho de tinta, na criação do quadro da vida vocês.

Por fim, desejo muito sucesso, muita perseverança para suportar os obstáculos desse desafio, que não são poucos.

E repetindo o que disse na aula da saudade, nossa relação professor/aluno se acaba aqui. Somos colegas pedagogos. Mas, nessa convivência acadêmica criamos laços. Laços de alegria, nos momentos descontraídos. Laços nas tristezas, nas dores, nas inseguranças, nas perdas. Laços de carinho e afeto. E principalmente laços do conhecimento, em que nos completamos em nossa incompletude.

Todos, laços do coração. E que os laços do coração jamais percam a sua função.

Boa noite.”

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3 Respostas para “FORMATURA DE PEDAGOGIA – UFAM”

  1. eliseu diz :

    legal, muito bom. o que vc disse é muito construtivo. qdo crescer quero ser seu aluno….ah é já cresci …já sou seu aluno…valeu!

  2. Ann Suelen Siza diz :

    kkkkk amei seu discurso, alis toda a minha familia…meu irmao gravou seu discurso pra mim…..agoras sempre irei lembre o que sr falou naquele dia……amei muito todas as palavras…

  3. Célia Ortelan de Rzende diz :

    maravilhoso o texto

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