Valeu, José Aldo ou tenho orgulho de ser amazonense
I – OS GLADIADORES
Os gladiadores eram lutadores que participavam de torneios de luta na Roma Antiga. De origem escrava, estes homens eram treinados para estes combates, que serviam de entretenimento para os habitantes de Roma e das províncias. Eram escolhidos entre os prisioneiros de guerra e escravos. Com o passar das lutas, caso reunisse muitas vitórias, tornavam-se heróis populares. Nas arenas (a mais famosa era o Coliseu de Roma), os gladiadores lutavam entre si ou colocados na arena para enfrentar feras. O combate entre gladiadores terminava quando um deles morria ou ficava ferido com impossibilidade de continuar a luta. Os gladiadores mais bem sucedidos ganhavam, além da popularidade, muito dinheiro e, com o tempo, podiam largar a carreira de forma honrosa. Estes privilegiados ganhavam uma pensão do império e um gládio (espada de madeira simbólica).
Com o crescimento urbano vieram também os problemas sociais para Roma. A escravidão gerou muito desemprego na zona rural, pois muitos camponeses perderam seus empregos. Esta massa de desempregados migrou para as cidades romanas em busca de empregos e melhores condições de vida. Receoso de que pudesse acontecer alguma revolta de desempregados, o imperador criou a política do Pão e Circo. Esta consistia em oferecer aos romanos alimentação e diversão. Quase todos os dias ocorriam lutas de gladiadores nos estádios, onde eram distribuídos alimentos. Desta forma, a população carente acabava esquecendo os problemas da vida, diminuindo as chances de revolta.
II – UFC NA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO
O Ultimate Fighting Championship (UFC) é a maior organização de artes marciais mistas do mundo. De origem brasileira, é atualmente comandada pela Zuffa Entertainment e presidido pelo norte-americano Dana White. Lutadores desse esporte praticam diferentes artes marciais, tais como jiu-jítsu, boxe, luta livre olímpica, boxe tailandês, boxe chinês, caratê, entre outras. É um espetáculo exibido em 36 países, inclusive no Brasil, cujo valor de mercado gira em torno de 1 000.000.000 de dólares. Um produto rentável e plenamente absorvido pela sociedade.
Guy Debord, em seu Sociedade do Espetáculo, afirma que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens. Diz ele:
O espetáculo, compreendido na sua totalidade, é simultaneamente o resultado e o projeto do modo de produção existente. Ele não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário — o consumo. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação total das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo é também a presença permanente desta justificação, enquanto ocupação principal do tempo vivido fora da produção moderna.
“A tendência dominante da vida mental e, talvez, da vida nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o “Princípio de Nirvana”) (p. 66)
Diante das dificuldades da vida moderna, excesso te trabalho e pressa, falta de tempo, dificuldades financeiras, infelicidade no amor, o sujeito vê-se cada vez mais envolvido em tensões, chegando muitas vezes a um estresse, isto é, um excesso de energia que causa desconforto, desprazer. Necessita, portanto, de situações que sirvam como válvula de escape para essas tensões. A Industria Cultural utiliza-se dessa prerrogativa para produzir instrumentos que sirvam como elemento desestressante e ao mesmo tempo venda e dê lucro. Podemos enquadrar nessa situação os confrontos do UFC. Estes são o mecanismo através do qual o sujeito “resolve” suas dificuldades do dia a dia. O sujeito, ao torcer para que o seu lutador predileto destrua o adversário e vença a luta, está projetando-se naquele diante de suas representações opressoras (patrão, companheiro, sociedade, mãe, pai, falta de dinheiro, credor, etc.)
Assim, Freud atribui ao jogo a função de mudar o sujeito de uma posição de passivo para ativo. Segundo ele, essa mudança transfere a experiência desagradável para um outro sujeito do jogo, vingando-se, dessa maneira, num substituto. O espectador “vinga-se” daquilo ou daqueles que o “oprimem” ou causam “desprazer” na derrota do adversário.
IV – CONCLUINDO, POR ORA
Essa projeção no outro como instrumento de prazer diante do desprazer se dá por um processo de identificação. Existem diversas formas de identificação, mas a mais comum se dá por questões geográficas. Se torce pelo meu compatriota, meu conterrâneo. Isso se vê de forma muito intensa no Brasil. Por exemplo, quando o papa João Paulo II morreu e começou o processo de escolha do novo papa, cogitou-se a eleição do cardeal Cláudio Hummes, brasileiro. Havia uma euforia por parte de uma parcela da população torcendo para que o Brasil “ganhasse” o conclave e assim termos um papa brasileiro, numa espécie de “UFC” católico. Provavelmente, se acontecesse, haveriam fogos, festa nas capitais, carnaval na Bahia, Globo Repórter sobre o novo papa brasileiro, O Fantástico seria dedicado a ele.
Outro exemplo típico dessa necessidade de identificação é escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Não se discutiu questões fundamentais, como a infra-estrutura necessária, a segurança, etc. Apenas, torceu-se para que fossemos escolhido sede. Manifestações em todas as partes do Brasil, foguetes e carnaval na Bahia. Depois se estendeu a euforia na escolha das cidades. Manaus foi uma delas. Gritos de “eu tenho orgulho de ser amazonense” invadiram a cidade. Não importam os bilhões gastos na construção de um Estádio que terá apenas três jogos e depois ficará como a maioria dos computadores das escolas públicas: guardados para que não se estraguem.
Agora, a identificação da vez é o manauara José Aldo, que venceu uma luta no UFC. Aqui se converge tudo o que foi dito até agora. Junta-se o espetáculo como instrumento de “gozo” para esquecer a vida miserável e patética que temos de forma muito mais próxima. Temos um conterrâneo vencedor. Uma imagem de que nós manauaras derrotamos no octógono tudo aquilo que nos oprime. Não se discute a porcaria de política que temos na cidade, com uma corja de políticos cínicos, até porque muitos votaram neles. Mas, os “derrotam” simbolicamente com o TAMBÉM amazonense José Aldo. Não pode reclamar do péssimo transporte coletivo de Manaus, porque os responsáveis por ele “trouxeram” a Copa do Mundo pra cá. Batemos neles então com os pés de José Aldo.
Por fim, só me resta lamentar que num país em que se criminaliza a briga de galo, se tenham orgasmos com uma luta entre homens. E aí, me desculpem os amantes desse “esporte(?). Dizer que é um esporte que ensina as pessoas a se respeitarem, que prega o equilíbrio, blá blá blá, é no mínimo ingenuidade. Ainda acho que sexo bem feito resolve todas as tensões.


Por aí, parceirito, foi o que eu também já disse. Um povo tão carente de tudo, caçando um ídolo, para satisfazer o ego, ter aquela sensação de superioridade, como se a vitória também fosse de cada um. A mesma coisa também já falei a respeito do futebol. É igualzinho. Impressionante como as pessoas chegam ao ápice do fanatismo, dão sua alma, sua vida por isso, deixando qualquer coisa de lado. Falando especificamente de nossa cidade, é incrível como tudo gira em torno do futebol, no decorrer da Copa Brasil, do Campeonato Brasileiro e do campeonato carioca. Aff! Haja saco!!!
É por esses e outros problemas que os amazonenses reconhecidos nacionalmente, depois que ganham algum dinheiro, se mudam de Manaus, buscam realidades que passam a fazer parte de suas vidas, já que o Amazonas fo i só o lugar (geográfico) onde eles nasceram. Notaram a bandeira que o José Aldo levantou? Será que ele tem orgulho de ser amazonense? Será que ainda mora no Amazonas?
APLAUSOS PRA ELE… NÃO É ASSIM QUE O POVO GOSTA?