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Viver não é preciso, mas é necessário

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Andanças


bebe-andando

Por Paulo Ricardo Freire

Quando somos bebês, nosso primeiro grande desafio, depois de conseguirmos sentar é o de andar. É um processo proporcionalmente importante e difícil que deve ser vivido e estimulado pelos pais. Por isso que muitos psicólogos desaconselham o uso de andajá. Cada conquista da criança deve ser reconhecida e estimulada pelos pais. Cada vez que ela levanta e cai de bumbum no chão tem o seu valor no momento em que ela conseguir dar os primeiros passos. E assim, continuamos pela vida toda: andando.

O tempo anda, nosso corpo anda, os sonhos andam, o pensamento, enfim, tudo. Com isso concluo que a vida é um processo de andança. E esse andar tem sempre uma meta, um foco, mesmo que muitas vezes nem saibamos disso. E, não me iludo, caminhamos sempre para frente, mesmo que andemos em círculos.

Tenho refletido sobre minha vida andante. Perto de fazer 49 anos, já andei muito e a sensação que ainda vá andar bastante, embora tente me convencer que não quero. Já fiz tatuagem, furei a orelha, comprei uma moto, troquei um fusca por um teclado. Embora nunca tenha saltado de paraquedas, descido na tirolesa, escalado montanha ou viajado para o exterior. Mas, já viajei muito (não tanto quanto gostaria) e conheci muita gente, muitos hábitos, muitas culturas. Aprendi e apreendi aquilo que me pareceu pertinente. Morei em São Paulo e lá pude entender a minha solidão, amiga e parceira desde o útero da Dona Maria Helena. Lá, compus a música “Olhos de Morcego” na qual relato esse convívio com a estética e a poética paulistana. Amo São Paulo, e daí?

Em Minas conheci a música em sua essência, na raiz. Uma das coisas boas que mineiro sabe fazer bem – além de pão de queijo e a culinária como um todo – é música. Ô gente boa pra fazer esse “trem bão”. O único festival de música que venci foi em Minas. A paisagem das montanhas, o cheiro da serra, as cidades históricas, o carisma mineiro, tudo isso me encantou e tatuou na minha alma bons sinais de Minas Gerais.

Andei pelo nordeste, pelo sul, pelo centro-oeste, conheço quase todas as capitais. Mas, ainda me encanto com os rios de minha aldeia. Tenho um elástico em meus pés amarrados, fincados como raiz aqui nessa minha cidade. Sempre que vou, não importa a distância, volto. Quanto mais longe vou, mais forte é a minha volta. É aqui que bebo na fonte. Foi aqui que pisei a primeira vez com os pés descalços na terra.

O meu futuro é incerto. O de todos nós. Sonhamos, projetamos, planejamos, desejamos… mas não sabemos. Não acho que já vi o suficiente do mundo. Falta muita coisa. Mas, ando cansado. As redes sociais potencializaram quase tudo no que diz respeito à relacionamento humano. Reverbera os carinhos, os afetos, os medos. Mas também a arrogância, a perversão, a crueldade. Além de mostrar como somos chatos quando queremos. Isso tem me cansado: as “verdades absolutas” de algumas pessoas. As maquiagens psicológicas (photoshop da alma) que alguns fazem com o objetivo de parecem especiais, únicos. Quanto mais estudo, mais me convenço que somos um poço dos desejos onde jogamos nossas moedas. Que somos um quebra cabeça montado com peças fornecidas pelas pessoas que passam pela nossa vida. E muitas vezes nem temos idéia da imagem que se formará, mas sim da imagem que desejamos. Se considerarmos a liberdade na essência, somos uma fraude.

Temos o livre-arbítrio amarrado no pecado, no medo da punição (rejeição). Nos resta andar, pra frente, contemplar as flores e as pedras do caminho. Não desperdiçar nenhum sorriso, nenhum abraço. Se nessa andança pudermos fazer o outro sorrir, já temos cumprido boa parte da nossa missão. Mesmo estando fechado em nossos casulos protetores, há sempre de se deixar um fresta para que vejamos os outros e estes nos vejam. Para que escape nossas mãos e que elas se toquem.

Continuo andando. Só isso que eu digo.

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Hoje é aniversário do meu amor: meu pai.


77 anos de idade. É a quantidade de anos que completa meu pai, o meu amor. Comecei a compreender o amor que sinto por ele depois que fui pai pela primeira vez. Antes disso, o sentimento era confuso. Achava desde criança que ele preferia meu irmão Sérgio, com quem sempre ele se relacionara melhor. Hoje sei que era porque eu, por ser o mais velho, era superprotegido e afetivamente consumido pela minha mãe, não sobrando espaço para o meu pai. Com a chegada do Sérgio, sobrou mais tempo para que ele fosse mais próximo da sua função de pai. Pelo menos eu representei assim.
Perto de entrar na adolescência, meu pai trabalhava no DER-Am e viajava muito. Passava de quinze a vinte dias fora. Cresci me acostumando com a sua ausência. Como consequência disso, acabei cada vez mais ligado na minha mãe, vendo a vida sob sua ótica feminina e materna. Ela, por outro lado, dividia comigo as suas angustias, suas dores e decepções. Comecei a exercitar a escuta de psicólogo aos 11 anos.
Quando meu pai chegava das viagens, a confusão na minha cabeça pré-adolescente aumentava. Quem era esse homem com quem eu não conseguia conversar? Que dava uma atenção danada ao meu irmão e que parecia não gostar de mim? Mas, que paradoxalmente eu sentia amor, mesmo sem saber? 
E assim cresci e aos 22 anos fui pai. Melhor dizendo, comecei a ser pai. A notícia da gravidez, o susto, a alegria, a ansiedade, o medo. Os nove meses de espera, a lágrima fugitiva que caiu quando meus olhos foram apresentados à Érika, minha primeira filha. O amor incondicional. Eu começava, de verdade, a ser pai.
Daí em diante, a forma de ver o meu pai foi mudando. Imaginei ele passando todo esse processo comigo (susto, alegria, ansiedade, a espera e a lágrima fugitiva). Percebi que até então jamais dissera “eu te amo” para o meu pai, embora não tivesse dificuldade de expressar nenhum sentimento para qualquer pessoa. E assim, todo ano ensaiava abraçá-lo no dia dos pais, no aniversário dele ou no Natal, e dizer: “pai, eu te amo”. Mas, sempre travava. Ficava o abraço. Que dificuldade.
Mas, aos 33 anos, no Natal. Tirei ele de amigo oculto. Na hora de entregar o presente, anunciei simplesmente que o meu amigo-oculto era o homem que eu mais amava na vida. Adivinharam. Eu fui ao seu encontro, abracei meu pai, dei um beijo em sua bochecha rosada e disse, ao seu ouvido, timidamente: “pai, eu te amo”. E recebi de volta não simples “eu também”, mas um “meu filho, eu te amo!”. E choramos muito. Parecia que ele também estava entalado e planejando esse momento. Os segundos viraram anos. Um filme passou na cabeça. E desde então, nos dizemos “eu te amo” de várias formas.
Mais tarde, ao entrar no curso de psicologia e ser “obrigado” a fazer terapia, pude desatar os nós que ainda estavam cegos. Passei a dar o significado que meu pai teve e tem na minha vida. Lembrei da infância com ele e do pai maravilhoso que ele foi e que eu tinha escondido na memória. Dos “banhos” de igarapé nos fins de semana, da primeira viagem pro Rio de Janeiro. Dos passeios de fusca, do futebol no Vivaldão, do camarim dos Trapalhões…enfim, da minha infância.
Comecei a ver que o meu pai, cuja a infância foi difícil, de muita necessidade, jamais foi egoísta. Sempre foi incapaz de comer uma bolacha, se só tivesse uma pra duas pessoas. Que nunca deixou ninguém andar a pé ou de taxi se estivesse disponível com seu fusquinha. E ele sempre está disponível.
Meu pai tem enfizema pulmonar, asma, diabetes e não escuta mais muito bem. Mas tem uma alegria e um humor que muito menino não tem. Tem um olhar moleque (o mesmo que aparentemente havia se perdido aos 16 anos quando foi morar sozinho no Rio de Janeiro), uma inteligência e uma pureza que só os sábios tem.
Defeitos? Muitos. Mas quem não os tem? Mas isso não tem muita importância quando se trata de pais e filhos. O meu pai é lindo. É fofo. E perfeito. É o meu amor. Feliz aniversário, meu velho, meu garoto. Obrigado por tornar significativa a minha existência. Eu te amo, meu pai.

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beleza, kokay, poesia

BELEZA AGRESSIVA


(Paulinho Kokay)

Estou cá eu com meus botões
Enquanto a tua beleza agressiva
Me corroi a visão vesga e miope
Me “leseirando” os sentidos
E eu, amaldiçoando o tempo
Por ter levado a minha juventude
Olho-te não com olhos de desejo
Mas com olhos de pobre mortal
E choro, compulsivamente, choro
Como um homem de verdade
Por tua beleza insana e única
Apenas de passagem por meus olhos.

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amor, beleza, homenagem

COMO É LINDA A PESSOA


Como é linda a pessoa que cantarola as palavras enquanto fala
Que  desfila pelos meus olhos com uma beleza única.
Como me encanta sua postura séria, correta, sempre serena
Que espanta os pobres de espírito pela sua grandeza de alma.

Companheira e solidária, sempre disponível
A dar um ombro e um abraço confortante
Quisera eu ter poder de encantá-la
E cantar as canções mais verdadeiras.

Quisera eu ser o homem que não chora
Que não sente tristeza nem solidão
Que a fizesse perder o sono
Com apenas uma canção.

Amor é isso, querer bem o bem querer
É sorrir na mais forte tempestade
É estender a mão quando caímos
É ser como ela, sempre  pronta pra guerra.

Guerra não… pra saga…

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beleza, citação, costumes, cotidiano, cultura, mulher, shopping

SHOPPING NOVO! VIDA NOVA!


“As pessoas andam pelo mundo atualmente/ sem lembrar que possuem um corpo e nele a vida/(…) E se fala favoravelmente da roupa/ de calças é possível falar, de ternos,/ e de roupa interior de mulher (de meias e ligas de ‘senhora’)/ como se pelas ruas fossem as roupas e os trajes vazios por completo/ E um obscuro e obsceno guarda-roupas ocupasse o mundo” (Pablo Neruda)

Há alguns dias inaugurou um novo shoppping em Manaus. Algumas pessoas, mal ele abriu as portas, estavam lá dentro, comendo poeira da obra ainda em construção, para não perder a oportunidade de conferir as novidades. Impressionante: não dormiram a noite anterior calculando os detalhes para esta visita. 

Eu detesto shopping center. Nunca incluí entre minhas preferências de passeio de fim de semana circular por um lugar horrível, fechado e atulhado de gente. Não gosto nem de ir aos cinemas lá. Prefiro um DVD no meu ar-condicionado e minha Coca-cola zero.

Se sua mulher ou sua namorada ou vive querendo carregá-lo ao shopping, programa odiado por “quase” todos os homens que conheço, e mais, querendo gastar os tubos em roupas caras (em alguns casos com o seu cartão), tenho o argumento ideal para demovê-la. Diga: quem precisa de roupa de grife é gente feia! Quem é bonito de verdade arrasa com qualquer trapinho.

As mulheres se iludem muito. Acham que por comprar uma roupa de marca vão se sentir melhor consigo mesmas, vão resolver problemas que na verdade estão dentro delas e não fora. Já ouvi inúmeras vezes mulheres dizendo: “Aí, tô mal, preciso de um banho de loja”. E vão e gastam e se endividam e… Continuam se sentindo péssimas.

Outro dia li que a supermode! Kate Moss entrou numa drogaria e comprou uma bolsinha qualquer por 5 dólares. A bolsa estava lá. Ninguém tinha reparado nela até miss Moss comprá-la. Mas, no dia seguinte, a tal sacola tinha virado um hit e chegava a valer 30 dólares nos sites de leilão! Depois dizem que modelo é que é burrinha…

É muita falta de auto-estima. Quer dizer que alguém (famoso) precisa dizer que algo é bom para você gostar? E a ditadura da moda contra a democracia do gosto: cada um tem o seu, pô. E por essas e outras que todo mundo hoje em dia parece igual.

Clones estéticos, com as mesmas roupas, os mesmos cabelos (dá-lhe chapinha!), os mesmos peitos (dá-lhe silicone!), os mesmos sapatos e até os mesmos sorrisos: já reparou que com a proliferação dos aparelhos as pessoas ficaram com a dentição idêntica? E eu que acho tão bonitinhos aqueles dentes um pouco tortos, dentucinhos, um tanto encavalados… Sei lá, davam personalidade.

Tem mulher que adora falar como custou os olhos da cara sua bolsa da moda, aquela que todas as amigas e celebridades compraram – quando o mais legal é comprar uma bolsa que ninguém tem e dizer: paguei uma bagatela!

Não é uma roupa de grife que vai trazer a salvação para uma alma incompleta. Não é um vestido caro que vai fazer feliz alguém que não se ama. Não é um invólucro fashíon que vai encobrir um interior feioso. Mesmo porque ele escapa pro exterior: a beleza, nunca é demais repetir, vem de dentro.

O poema de Pablo Neruda citado no início deste post, Residência na Terra, é uma lição sobre isso.

Mas como em tempos mentalmente bulímicos os poetas parecem exercer influência muito menor sobre os mortais diante das modelos, também vou citar uma frase de Císele Bündchen: “Nunca segui moda nenhuma. Posso usar a mesma roupa durante dez anos”. Menina esperta. Aposto que ficaria linda até numa temível calça baggy.

P.S. Amazonino, cadê meu caminhão com Internet?

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