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Globalização


Eu estava tomando café em uma banquinha em frente de uma escola. Na rua, um pastor pregando com uma caixa de som para os adolescentes. De repente ele fala que sexo sem o casamento é coisa do diabo. E diz que quando isso acontece “é o diabo que está te carregando”. Aí um aluno que estava próximo pergunta a outro: “O diabo te carrega?”. Sem pensar muito, o outro responde: “Carrega mesmo…Graças a Deus”. Tempos de globalização.

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O dia que fui artista “de verdade”


O ano era 1989. Geraldo Azevedo, à época no auge, fez um show maravilhoso no Olímpico Clube. Eu cantava no Club da Skina e era conhecido apenas pelos que frequentavam. Fui convidado por alguém da produção, que era cliente do bar, para fazer o pré-show. Apresentei-me com Said Bastos na percussão. Nesta noite, iria cantar apenas músicas de minha autoria. O show estava atrasado. 

Quando entrei no palco, algumas vaias e gritos de “Geraldo Azevedo”. Sinceramente, aquilo quase me abalou, mas respirei fundo e comecei a cantar. Seriam seis músicas. Na segunda música, a sensação era de que estava cantando pra ninguém e pronto para receber tomates e ovos na cara. 

Na terceira música, avisei Said que modifiquei o repertório. Cantei “Porto de Lenha”, dos amigos Torrinho e Aldizio Filgueiras. Todos cantaram juntos. Foi mágico. Ao final da canção, fui ovacionado. Daí até o final, vi uma platéia interessada em ouvir aquilo que eu estava cantando. Saí do palco me sentindo um artista de “verdade”. 

Saudade de um tempo em que o público tinha disposição para ouvir o novo. Um tempo em que não tínhamos uma carreira e sim uma estrada. Éramos “amadores” porque amávamos fazer aquilo. 

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As crianças e o sexo


Preparando o material para a disciplina “Educação e Sexualidade”, deparei-me com esse instigante texto do psicanalista Contardo Calligaris. Vale a pena ler e refletir.

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Podemos nos resignar. Neste começo do século 21, em qualquer sociedade mediamente modernizada, nenhum pai tem condição de vigiar, selecionar e limitar o acesso à informação de seus filhos. Isso vale especialmente em matéria de sexualidade. A oferta é gigantesca —30% do tráfico de dados é pornografia, 25% das procuras na internet são sobre um tema sexual, os sites de pornografia recebem mais visitas que Netflix, Amazon e Twitter todos juntos. Essa oferta encontra inevitavelmente as maiores curiosidades infantis —desde “de onde vêm as crianças?” até a “como será que gozam os adultos?”. Nenhum pai proibirá totalmente o uso da internet, por medo (justificado) de isolar seus filhos. A rigor, aliás, essa posição implicaria a decisão de educar os filhos em casa, sem escola. Alguns pais, na fronteira entre o otimismo e a ingenuidade, monitoram os filhos (com razão) graças a programas espiões, que registram as andanças pela Internet, ou confiam em filtros, que impedem o acesso a sites “para adultos”. No melhor dos casos, eles conseguem preservar o sono de seus filhos, que não terão interesse em navegar noite adentro embaixo dos cobertores. Mas, no dia seguinte, eles estarão navegando no computador do amigo, ou num smartphone emprestado. Mais ou menos um século atrás (a primeira edição de “Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, de Freud, é de 1905), começamos a admitir que as crianças, mesmo pequenas, tinham “interesses” (digamos assim) sexuais precoces. Desde então, durante seis ou sete décadas, parece que nossa maior preocupação pedagógica em matéria de sexualidade foi a seguinte: o que vamos dizer e mostrar às crianças, quando e em que ordem, para que elas domestiquem e organizem seus interesses sexuais (confusos, parciais e, por que não, “errados”) de forma a elas chegarem a transar como “gente grande” (isso na hora da “maturidade” sexual)? Claro, o problema é: como transa a gente grande? E qual deveria ser a finalidade de uma educação sexual? Deveria ser interna ao sexo, ou seja, por exemplo, a de permitir que as crianças tivessem um dia o sexo mais prazeroso possível? Ou deveria ser um aprendizado de renúncias, escolhendo menos prazer em troca de, sei lá, mais harmonia entre parceiros? Ou o fim deveria ser simplesmente a obediência aos costumes sociais dominantes? Seja como for, prevaleceu e ficou a ideia de que o fim e suprassumo de uma boa educação sexual seriam a copulação entre um homem e uma mulher (quem sabe, casados e com a procriação como alvo). A própria psicanálise participou dessa empreitada “educativa”. Muitos psicanalistas acharam que as criancinhas gostam de morder e chupar, mas nós, gente grande, aprendemos a desejar sem querer devorar nosso objeto; ou, então, que as criancinhas se excitam com cadeiras de cocô (a analidade tem a ver com sadismo, essa é outra história), mas nós, gente grande, aprendemos a desejar sem querer dominar ou ser dominado (não é?). A lista continua das coisas que as criancinhas fazem e nós não fazemos e lhes ensinaremos a não fazer. No fim dessa lista utópica vem o melhor: ensinaremos às crianças a sentir, ao mesmo tempo e para a mesma pessoa, desejo sexual e sentimentos ternos e amorosos. Esse projeto pedagógico nunca funcionou bem, mas, durante décadas, ele inspirou nossos esforços de “educação sexual”. De fato, o projeto de educação sexual das crianças serviu sobretudo para os adultos. Ou seja, usamos as crianças para tentar educar nossos próprios desejos confusos e erráticos (se não “errados”) e para tentar juntar, em nós, amor e sexo. Mas o que importa é que, agora, esse projeto pedagógico (das crianças ou de nós mesmos) acabou: a Internet o sepultou de vez. Por quê? Mas porque qualquer um descobre em dois cliques que os adultos gozam exatamente com todas aquelas tendências supostamente infantis, que eles tentavam levar as crianças a esquecer e, por assim dizer, a juntar num amor-sexo ideal, fundação da familia. Ou seja, hoje, as crianças não só sabem que seus desejos não são restos infantis aos quais eles deveriam renunciar para crescer, mas que eles são o tecido mesmo do desejo dos adultos. Elas também sabem que os adultos, quando lhes falam de sexo, quase sempre, estão mentindo. Isso é bom ou é ruim? E, sobretudo, bom ou ruim para o quê?

Folha de São Paulo, 24/04/2014

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The Voice Brasil


A despeito daqueles que de tudo fazem um campo de guerra ou um motivo pra lamentar a existência, gostei do The Voice Brasil. Eu, particularmente, torci por Dom Paulinho e na final pelo Rubens Daniel. Mas, creio que todos que concorreram tinham VOZ, razão da existência do programa. Embora eu ache que a fase mais autêntica do programa é a audiência às cegas, onde o único fator determinante é a voz. Depois, começam a contar afinidade, performance, visual, etc. E quando começa a participação do público vira um concurso de popularidade, o que não deixa de ser interessante para os artistas, mesmo para os que não venceram.

Algumas pessoas acusam o programa, chamando-o de “farsa”, tecem teorias mirabolantes contra o domínio ianque na mídia brasileira, etc. Fico me perguntando o que esse povo quer? Que mundo essa gente contempla? Nada presta, tudo tem uma intenção maquiavélica oculta. O nome THE VOICE (a voz) mostra vozes lindas sendo emprestadas para canções. A julgar pelos comentários, o mundo seria insuportável se essas pessoas o tomassem de assalto.

Embora alguns aqui já tenham tentado compará-lo ao BBB ou coisa parecida, o considero um dos poucos programas de qualidade na TV aberta. “Onde estiver a música, a vida estará se renovando”.

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Alberto Penkauskas – “Solto a voz nas estradas…”


alberto_penkauskasConheci o Alberto há quase 20 anos. Lembro bem quando. Provavelmente em 1993. Eu acabara de fazer um show no Teatro dos Artistas e dos Estudantes, o qual teve a participação dos bailarinos Isa Kokay e Chico Cardoso dançando na música “Bailarina”, composta pra ela.

Eu estava extremamente nervoso por ser, teoricamente, o meu primeiro show produzido. Ao final, me chegou no camarim aquele ser iluminado, alto, olhos claros, louro, com uma voz grave me dando os parabéns. Lembro exatamente o que disse: “Muito bom o show, excelente as canções. Sua voz é belíssima, por isso tem que ser jogada com toda força pra fora. Da próxima vez, não tenha medo, solte a voz com toda sua potência, sem medo.”

Fiquei extremamente surpreso, porque nessas ocasiões, normalmente, as pessoas só elogiam formalmente. Não, o Alberto, a quem ainda não havia sido apresentado,  foi o meu primeiro crítico. E aquelas palavras foram bem ouvidas e deram frutos nos shows seguintes.

Algum tempo depois, fui apresentado a ele por Neuza Rita. Ela sempre falava do Alberto, do Pombal. Quando vi que aquela pessoa que falara comigo ao final do show era o “Alberto” da Neuza, fiquei muito feliz porque era exatamente aquilo que Neuza falava.

Conversamos um pouco e, algumas vezes nos reencontramos em eventos, ele sempre cordial e doce.

Outra vez, alguns anos depois, fiz um show junto com Pereira no Teatro Amazonas. Lá estava o Alberto na platéia. Quando terminou ele me abraçou e disse: “Agora sim! A voz tomou conta do artista”. Lembrei do primeiro comentário dele, lá no primeiro show, e me emocionei, de verdade.

Depois, mudei-me pra São Paulo, cortei os cabelos compridos e, quando retornei, por duas vezes acho que não me reconheceu e não falou comigo e eu também me senti intimidado. Pura besteira, hoje eu sei.

Não fui amigo presente do Alberto e nesses anos todos raras vezes nos encontramos e conversamos. Mas sempre guardei em meu coração aquela figura austera, elegantemente desengonçado e profundamente carinhoso, gentil e educado.

O reencontrei depois de uns dez anos, há pouco mais de dois meses, numa agência do Bradesco. Um senhor de chapéu que, mesmo indignado com o péssimo  tratamento, não perdia a classe. Olhei e vi que era o Alberto.

Senti um saudosismo de uma época boa da minha vida, senti uma alegria em ver aquela pessoa que, sem saber, foi fundamental no meu ofício de cantar. Deu-me uma vontade enorme de me aproximar e falar com ele, dá uma abraço e contar essa história. Mas, confesso que recuei. Não sei bem se o receio de não ser reconhecido, dele não se lembrar de mim. Fiquei ali, sentado olhando com carinho. Mas, ele foi embora e não o vi mais.

Ontem soube do seu falecimento pelo Pereira, no Facebook. Sinceramente, chorei baixinho o choro do arrependimento de não ter ido falar com ele. Chorei pelo que representou Alberto na cultura dessa cidade. E pela dignidade e seriedade que fazia parte de suas melhores qualidades. Vai com Deus, amigo. Agora você sabe que suas palavras lapidaram o cantor. Que o canto de todos nós lhe reverencie por toda a eternidade. Um beijo fraterno.

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Autonomia e tolerância: um par perfeito


intoleranciaVendo os rompantes de intolerância e agressões gratuitas no Facebook, fiquei aqui pensando. As pessoas esquecem que toda relação é política e é uma correlação de forças exercidas através de um determinado tipo de poder. Pode-se “obrigar” o outro aparentemente pensar como eu, por exemplo, quando eu exerço um poder legar sobre este. Se eu sou diretor de escola e tenho o poder dispensar um determinado professor, este provavelmente vai “pensar” como eu, se precisar muito do emprego. Se eu sou secretário de educação, ainda por exemplo, eu tenho supostamente o poder sobre a maioria dos professores, que passam a publicamente me idolatrar, me elogiar, mesmo que nos corredores das escolas ele o abomine.
Mas também posso exercer o poder de outras duas maneiras. O poder de referência e o poder de especialista. Através do poder de referência, eu conquisto meu espaço pelo exemplo, pela conduta aprovada pela maioria, que me respeita. As pessoas me admiram e “pensam” como eu, mesmo sem ter a certeza absoluta disso. No poder de especialista, o que determina é o lugar que ocupo. Se a questão é doença, é mais comum que uma pessoa escute um médico (especialista) do que um curioso que se automedica. Pelo menos deveria.intolerancia 2E aí aparecem duas categorias um pouco esquecidas no meio acadêmico. A autonomia e a tolerância. Um sujeito autônomo é aquele que tem opiniões próprias, que é muito seguro (pelo menos aparentemente) de seus valores. Um sujeito autônomo não se deixa levar pelo inconsciente coletivo, nem por padrões de comportamentos. É um sujeito geralmente muito pragmático e objetivo. Isso pode ser uma qualidade, desde que esteja associado à outra categoria: a tolerância. De nada vale ser autônomo, mas intolerante. De nada vale eu ter opinião própria sem que eu considere a opinião do outro. Sem que eu considere a diversidade. E aí, volto ao início. É através do poder de referência que apresento meus argumentos e consigo “simpatia” dos demais. Jamais pela imposição.

Isso é pra pensar sobre a postura de algumas pessoas, principalmente nas redes sociais, mas que serve para as nossas relações de trabalho.
Só isso que eu digo!

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