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Devemos contar nossa história


passado_presente_futuro

Nós precisamos do passado. Rememorá-lo é como se traçássemos uma linha, uma conexão entre o nosso ponto de partida na existência com o hoje e o agora. Quanto mais velhos ficamos e nos aproximamos da morte, mais nos apegamos às histórias do nosso passado. Em outras palavras, é como se, à medida que o tempo para o futuro diminui, necessitamos reforçar o passado como uma forma de reafirmar a nossa existência. Talvez, por isso, a maioria dos idosos contam e repetem histórias do passado. Isso se intensifica se considerarmos como, de forma geral, os idosos são tratados em nossa sociedade.

Uma parte de mim é todo mundo,
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão,
Outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa e pondera,
Outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente,
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem,
Outra parte linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte,
Será arte?
(TRADUZIR-SE – Ferreira Gullar)

Estive pensando nisso. Estou com 48 anos. Teoricamente, se eu viver até os 96, estou na metade do meu percurso. Quanto de passado eu tenho! São muitas histórias, muitas pessoas, muitas emoções, alegrias, tristezas, ganhos e perdas. Como no poema de Gullar, sempre estive no limiar entre a multidão e a solidão, entre a ponderação e o delírio, entre o ser permanente e o saber-se de repente.
A canção “Caçador de Mim”, de Luis Carlos Sá e Sérgio Magrão, brilhantemente gravada por Milton Nascimento e pelo 14 Bis, me toca profundamente por ser uma espécie de hino da minha vida. Reflete exatamente aquilo que me move: a eterna busca por mim mesmo. Hoje, de forma mais quieta e discreta, ainda estou em plena busca de mim mesmo e de minha essência. Saber-me, cada vez mais, me ajuda a compreender os outros e suas dinâmicas. Compreender que a minha história foi uma intensidade de experiências com as mais diversas pessoas me fez chegar ao ser que sou hoje. Sou a soma de todas as pessoas com as quais, de uma forma ou de outra, compartilharam-se com a minha história.

Por tanto amor, por tanta emoção, a vida me fez assim: doce ou atroz, manso ou feroz, eu caçador de mim” (CAÇADOR DE MIM – Luis Carlos Sá e Sérgio Magrão)

Adoro conhecer as pessoas e suas histórias. Sou quase obsessivo. Exercito, assim, a minha humanidade, ao mesmo tempo que constato a nossa vulnerabilidade humana. Somos tudo e nada. Somos o presente. Passado e futuro são fantasias. Entretanto, se não os articulamos nos tornamos seres fragmentados, inconclusos. Por isso precisamos contar nossas histórias de vida, não importa a forma. Posso escrevê-la, cantá-la ou simplesmente “conversá-la” com as pessoas. Tenho vivido muito melhor assim.

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A primeira vez que me apaixonei


Eu lembro exatamente a primeira vez que me apaixonei. Tinha por volta dos onze anos de idade. Morava na rua 3, nº 20, no Parque Dez. As portas e janelas da minha casa tinha pequenos vãos de onde se podia ver a rua, “brechando-se” como se dizia.

Ela morava na casa da frente. Não lembro do rosto dela, mas sei que ela era linda. Eu vivia de plantão sempre esperando que ela aparecesse no pátio de sua casa. Por vezes, eram apenas alguns segundos que me faziam sentir um frio na barriga. Ficava horas ali, espreitando, sonhando. Naquele momento, olhá-la era o suficiente, pois não tinha coragem nem de aparecer, imagine de falar com ela. Tocava com os olhos.

Em razão da minha timidez e de não saber o que fazer com aquele frio na barriga, comecei a escrever em um caderno tudo o que poderia dizê-la. Eram frases soltas, sobre vários assuntos, uma espécie de conversa virtual que ia se estruturando em um “manual de sobrevivência” da paixão. Foi, provavelmente, neste momento que comecei minha relação com a poesia, ainda em estado bruto.

Por fim, ela acabou mudando e eu nunca tive coragem de me aproximar, ficando o não dito escrito num pequeno caderno pautado com a letra do Hino Nacional na capa. Nunca mais ouvi falar dela. Lembro o nome, mas por questões éticas, fica aqui registrado como “a menina da frente”.

Pouco tempo depois, na escola, senti a mesma sensação por outra menina, recém-chegada de outro bairro. Todos os meninos eram a fim daquela morena brejeira, de olhinhos puxados pela caboclice. Não sei porque razão ela me escolheu. Eu era magro demais, usava óculos, era tímido…mas ela me escolheu e começamos um namoro que se resumia a sentar-se do lado um do outro, na sala, de caminhar junto até a esquina de sua casa.

O primeiro beijo viria bem depois. E, parafraseando João Nogueira, “me beijaram a boca e me tornei poeta”. Foi meu primeiro indício de amor. Aquela sensação foi inesquecível. Posso sentir o cheiro da saudade que eu sentia quando não estávamos juntos, sempre na escola. Lembro da dor quando ela terminou comigo e começou a namorar outro colega, o cara mais descolado do colégio. Foi dor de corno aos doze anos de idade. Ouvia Roberto Carlos (“Onde você estiver não se esqueça de mim”) ou Benito de Paula (“Você cortou o barato do meu amor…”) e chorava. Sério, chorei de amor pela primeira vez aos doze anos.

Até hoje não sei porque ela me escolheu. Até hoje não entendo porque ela me deixou pra ficar com o cara mais popular da escola. Por que não logo ele? Só sei que de lá pra cá foi só o que vivi. Amor e paixão, tudo com muita intensidade. E dor também. Porque, como disse Vinicius de Moraes, “a tristeza traz sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não…”. Mas, “o que é o sofrer, para mim que estou jurado pra morrer de amor…” (Djavan)

Tão bom morrer de amor e continuar vivendo… (Mario Quintana)

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
(Carlos Drummond de Andrade)

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História


Somos o que vivemos e nos tornamos o que resulta de nossas interações. Nossa existência é consequência da nossa história. Uma história se constrói com atos, sentimentos e sonhos. Sentir-se fora da história é o mesmo que perder as qualidades da memória.

Acredito que quando nascemos, criamos nosso vínculo com a nossa morte. E tudo o que se liga do primeiro ao último momento é extremamente importante para a nossa existência. Por isso, sou um ser fragmentado se retiro da minha história alguma peça, deixando um vácuo na mesma. Porque acabamos por ocupar esses espaços com imagens inconscientes que dêem sentido a última e a próxima peça. E um ser fragmentado, obviamente, não será completo, jamais.

Dividir a vida com alguém é, em síntese, juntar histórias. Duas histórias diferentes, com características próprias que passam a ser contadas como uma. Por isso, acredito que essa nova história que se constrói, por conter elementos de duas histórias individuais, deve ter uma unidade, deve ser compartilhada do nascimento de cada uma até o fim das duas. Se isso não acontece, ficam espaços vazios que, se não forem preenchidos devidamente, acabam por trazer incertezas, dúvidas que impedem a compreensão do presente.

Não gosto de me sentir fora da história. Sinto-me descartado e ao mesmo tempo alheio a uma história que deveria ser minha também. Essa é a minha proposta. Entregar-me com verdade e transparência desde o meu nascimento até a minha morte. Porque assim acredito estar amando verdadeiramente e doando a minha vida ao amor.

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Coisas do Brasil


Por Paulinho Kokay

Foi tão bom te conhecer, tão fácil te querer. Triste não te ver por tanto tempo. É bom te encontrar, quem sabe feliz, com a mesma alegria de novo. (Guilherme Arantes)

Ao vê-lo sentado à sua frente com os olhos cheios de lágrimas, com as pálpebras inchadas e rubras, ela se deu conta que há muito tempo não o via, embora ele sempre estivesse ali. A angústia dele, o medo que demonstrava de perdê-la ou de vê-la transformar-se na vilã de sua história, como tantas que passaram por ele e a insegurança com a sua própria existência causaram nela um sentimento de compaixão.

Ela sabia que parte da dor de seu amado era por causa de suas histórias erradas e mal resolvidas. Mas também sabia que ela precisaria dar-lhe segurança. Por um momento sentiu ódio por ter lido que as pessoas são eternamente responsáveis pelo que cativam, frase célebre de “O Pequeno Príncipe”. Não queria. Não podia. Não havia mais forças nem paciência.

Percebeu naquele homem fragilizado pela doença que ele já não fazia brilhar seus olhos nem lhe causava frio na barriga, como anos atrás. Já não havia mais nela o desejo, a vontade de tocá-lo, como nos primórdios. O príncipe transformara-se em sapo. Mas, havia algo de terno em seus olhos ao vê-lo ali, destruído. Seria, de fato, compaixão? Seria gratidão pelos longos anos de convivência? Ou simplesmente porque, a seu jeito, ela verdadeiramente o amava?

Tocou-lhe então os cabelos brancos pelo tempo. Viu que havia sido feliz com ele. Lembrou-se que homem nenhum havia lhe amado com tanta intensidade como ele. Agradeceu a Deus por ele ter sido sempre tão apaixonado e fiel a ela, como um súdito contemplando sua rainha. Sentiu-se amada e ao mesmo tempo culpada. Ela não havia sido completamente honesta com ele. Nunca o traiu, mas deixou-lhe alheio às suas dores, à sua solidão e à sua vontade de viver tudo o que a vida pudesse oferecer.

O tempo passou, no entanto. Estavam velhos. O vigor físico não acompanhava o desejo de vida que ela tinha. A alegria havia envelhecido junto. Ela estava perdendo o homem com quem vivera praticamente sua vida toda. E sentia remorso por ter perdido tantas oportunidades de lhe contar suas verdades. Era como se ela tivesse vivido em dois corpos, duas vidas, duas trilhas que, embora paralelas, eram diferentes.

Mais uma vez tocou-lhe os cabelos e depois abraçou-lhe sentindo seu corpo magro e frágil tremer. Ficaram ali, por alguns minutos. Sentiu nas costas as lágrimas dele tocando-lhe a pele. Ela chorou. Para sempre.

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Todo povo tem de ir aonde o artista está


“Uma geração não é feita de idades mais de afinidades”- ZUENIR VENTURA

Comecei oficialmente como músico em junho de 1985, quando o “conjunto” que havíamos criado para animar uma festa de colégio para angariar fundos para a formatura, denominado Estado de Coma, subiu ao palco pela primeira vez.
Eu tocava contrabaixo e tinha como parceiros e amigos Cléber Cruz (vocalista e hoje ainda cantando profissionalmente); os irmãos Nanda (vocal) e Ricardo Bártolo (com algumas participações da outra irmã, Nilce nos vocais); Ana Cristina Fernandes (Vocal. Aninha, minha amiga professora da UFAM), Waiser (Guitarra) e Márcio Campelo (Teclados).
Éramos jovens sonhadores que se divertiam com música. Tínhamos público fiel, fãs e ganhamos prêmio de melhor banda. Fiquei apenas um ano.Estado de Coma
Em 1988, comecei a tocar na noite, já com o nome artístico de Paulinho Kokay (sobrenome adotado da mãe das minhas filhas Érika e Mariah), num bar chamado Labre’s. Daí em diante, nunca mais parei, de fato. Toquei em quase todos os bares da moda na cidade: Paulo’s Bar, Consciente, Club da Skyna, Asa Delta, UTI (Piracema), Moronguetá, Hauss Bier, Flat’s, Fino da Bossa, Botequim, Porão da Bossa e tantos outros que nem lembro. Também toquei em bares de Campinas, Piracicaba, São Paulo, Itajubá, Belo Horizonte, Niterói e Brasília.
Em todos eles, inclusive os de fora da minha cidade, o que valia a pena continuar na noite era o público. Pessoas que, mesmo que tivessem ido ao bar para conversar, acabavam se envolvendo com a música e, em determinado momento, aquilo virava uma cantoria generalizada. Era lindo demais.
Botequim14O tempo passou e hoje, sinceramente, estou musicalmente triste com o que tenho visto. Longe de tirar o brilho das pessoas que vão aos meus shows, amigos reais ou virtuais. Estes têm me mantido ainda persistente. Falo de ausência de algumas pessoas (importantes e valiosas como público, pra mim).
Sempre ouvi com propriedade o recado de Milton Nascimento de que “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Mas, acredito que a recíproca seja verdadeira. Todo povo também tem de ir aonde o artista está. É uma troca. Assim, hoje, tocar e cantar está ficando chato. Sair de casa para me apresentar em um bar tem sido uma experiência torturante. Sinto-me como aquele menino que convidou os colegas da vizinhança para o seu aniversário e ninguém apareceu.
Toda semana de show, preparo repertório, ensaio coisas novas, lembro de amigos e suas canções prediletas, aprendo canções pedidas em noites anteriores e que eu não soube cantar. Enfim, penso no público. E este não aparece.
Penso na situação financeira (muita gente não tem como priorizar lazer), nas blitz da Lei Seca (as pessoas estão preferindo beber em casa). Mas, vejo nas redes sociais fotos destes amigos em outros bares e, sincera e honestamente, sinto-me como aquele garoto da escola. Como um médico que não consegue curar seu paciente, como um advogado que perde uma causa ou um professor que vê seu aluno desviar-se para outros caminhos senão do sucesso. Sou uma pessoa autocrítica e, por isso, reviso todo o meu trabalho pra ver onde estou errando.
Não estou! Canto com alma, tenho um vasto repertório, gosto de cantar. Por isso meu desabafo. Estou cansado de ir aonde o povo está. Estou cansado de mendigar a presença das pessoas em meus shows. De hoje em diante me limitarei a divulgar onde e quando vou estar. Ponto. Sem convites, sem expectativas, sem esperar nada.
Ninguém é obrigado a estar onde não quer. Exatamente por acreditar nisso é que respeito a opção das pessoas em não estarem onde estou. Mas, quero ser respeitado pelo meu trabalho, sério e honesto, que completa 29 anos em junho. Não sei se chega aos 30. Estou me “desapegando” da profissão de cantor, das pessoas em mesa de bar. Sou de outra geração. Quero gente de verdade. Vou preferir cantar e cantar uma noite inteira no quintal da casa de um amigo, de graça, se assim for divertido.
Obrigado a todas as pessoas que têm mantido acesa essa chama de ser músico. De coração, tenham certeza que cada um de vocês tem o meu respeito e a minha gratidão por, em um momento que seja, terem compartilhado comigo de músicas e que estas tenham, de alguma forma, nutrido suas almas.

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Artista da terra – parte I


Não lembro bem o ano, mas deve ter sido em 89 ou 90. Eu tocava no Paulo’s Bar, point da juventude de Manaus, à época localizado no conjunto Petros. Depois de encerrar minha apresentação, fui abordado por uma pessoa que não lembro o nome se apresentando como empresário. Que estaria trazendo Geraldo Azevedo para Manaus e que gostaria que eu fizesse o show de abertura.

Eu estava ainda no início da carreira, conhecido apenas no meio musical e somente por alguns músicos. Fiquei empolgado e, evidentemente, agarrei a oportunidade. O discurso dele foi bem promissor: “não tem cachê, mas você vai tocar para um público muito grande e vai poder divulgar seu trabalho. Defendo que temos que da chances para o artista da terra“.

O show foi no Olímpico Club. Lá estava eu no palco tocando junto com o percussionista Said Bastos, para uma platéia de mais de 800 pessoas, que aguardavam ansiosamente o xodó da MPB que bombeava nas rádios, Geraldo Azevedo. Quando entrei no palco, ainda sem cantar, ouvi algumas vaias e pessoas gritando o nome do artista principal.

Comecei a cantar “Zona Morta”, música minha totalmente desconhecida. Ao mesmo tempo que eu, a platéia, muito educada, cantava em coro “Dia Branco”, do Geraldinho. Apesar do microfone, o coro sobrepunha-se à minha voz. E assim foi nas próximas três músicas seguintes, todas de minha autoria. O “artista da terra” não conseguia conquistar o público eufórico por Geraldinho.

Olhei para o Said e este me incentivava com a cabeça, dizendo pra “continuar com personalidade”. Faltavam duas músicas ainda. Resolvi tocar Porto de Lenha, de Torrinho e Aldizio Filgueiras, hit “da terra” do momento. Nos primeiros acordes, quando eu cantei “Porto de lenha tu nunca serás Liverpool”, o coro se transformou em aplausos. De repente a platéia inteira cantando junto comigo. Foi lindo. A última música que cantei foi a mesma com que abri o show. Zona Morta, que fala de Manaus, agora foi aplaudida. Me despedi e anunciei Geraldo Azevedo, que passou por mim sem sequer olhar e arrebentou no palco.

Foi a primeira vez que fui chamado de “artista da terra“. No dia seguinte, fui à luta para garantir o leite da minha filha, porque artista da terra tinha espaço mas não tinha cachê. Não dava para chegar no supermercado e dizer para moça do caixa que eu não tinha dinheiro mas eu tinha umas músicas que eram bonitinhas.
Continua

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Passado, presente e futuro


É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã… (Renato Russo)

Essa frase cantada e ouvida pelos quatro cantos tem sido uma máxima nas redes sociais. Na minha interpretação ela faz referência à necessidade de se viver o amor no presente, no dia a dia, como uma semente que se rega visando a beleza das flores. Sob esse argumento, concordo, em parte, que ninguém vive somente de passado ou de projetar ou imaginar o futuro.

No entanto, penso também que um amor vivido somente no presente, sem considerar as experiências do passado e as perspectivas do futuro incorre em um erro que pode ser fatal, se o sentido dado à frase de Russo suscitar a idéia de se viver o momento.

O futuro é o que nos move, pelo desejo, pela curiosidade, pela vontade de alcançar metas e objetivos. A sua idéia é necessária para nossa sobrevivência existencial. Sem pensar no futuro, o presente perde um pouco seu sentido, uma vez que nossos atos produzem sempre conseqüências, boas ou más. Assim, evito cometer um suposto erro hoje, no presente, porque sei que no futuro minha vida terá problemas. Se, por exemplo, eu gasto todo o meu salário hoje, sem pensar no restante do mês, das dívidas, dos compromissos, fatalmente amanhã estarei falido.

Da mesma forma que o passado é necessário. Somos, sendo humanos, seres aprendentes. A experiência acumulada nos auxilia exatamente a não cometer erros que já cometemos ou que presenciamos outros cometerem. Melhoramos quando aprendemos com o passado, com os erros, com as vitórias.

Nesse ponto de vista, o presente é o elo intrínseco entre o passado e o futuro. Por isso deve ser vivido com qualidade. Mas, ele é o museu do passado e a fábrica do futuro. E aí volto à frase do Renato Russo. É preciso amar as pessoas…pensando no amanhã, no que podemos ganhar ou perder com nossos atos. Se eu amo, verdadeiramente, e desejo participar com esse amor junto ao objeto amado, preciso cuidar deles (do amor e do objeto) no presente. Mas tenho que me apegar nas experiências vividas para não cometer erros que prejudiquem esse propósito. Por isso, devo amá-lo considerando, sim, o amanhã, os projetos, os sonhos. Beijar é bom. Assim como a certeza do beijo amanhã é tão saboroso quanto. E a lembrança do beijo beijado também.

Só isso que eu digo.

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