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A vida é frágil ou o dia em que tive AIDS


Paulo Ricardo Freire

Geraldo é meu primo que trabalha no Hemocentro, lugar destinado a tudo que se refere a sangue humano, desde doação até exames diversos, inclusive o de HIV. Há tempos não via o Geraldo. Um dia encontrei-o em um bar, sozinho, tomando a sua sagrada cerveja.

Cheguei perto, saudei-o e ele me deu um “oi” amargurado, angustiado. Sentei e perguntei o que havia. Ele, filosoficamente, me olhou profundamente e disse:“- A vida é frágil!!!”

Fiquei perplexo e ao mesmo tempo preocupado. Qual seria a dimensão daquela frase pequena mas fortemente carregada de um peso imensurável. Para não constrangê-lo, nada perguntei e fiz uma cara de quem esperava a continuação da sentença.

“- Eu estou cansado” – continuou – “Trabalho num lugar que a cada dia aumenta o número de pessoas que vão pro segundo andar.”

Achei que ele referia-se às pessoas que morriam de AIDS e consequentemente partiam para o andar de cima. Mas logo me esclareceu que o segundo andar a que se referia era o segundo andar do Hemocentro, onde ficavam os psicólogos e para onde os HIV´s positivos são encaminhados após confirmar-se a contaminação. Lá recebem toda a assistência psicológica e até pedagógica. Ele me dizia que há pouco mais de um mês havia sido transferido temporariamente para o segundo andar substituindo um funcionário que entrara de férias.

“- Aquilo é um inferno” – dizia sem piscar, olhando para o copo de cerveja (Geraldo é daqueles que conversa sem olhar para o interlocutor, sabe?) “– As pessoas sobem sem nada entender e entram na sala do psicólogo. Quando saem, transformados em farrapo humano, seguem sem qualquer direção.” – Após respirar profundamente, diz de modo enfático “– Mais um que se fodeu!”

Conversamos ainda por alguns minutos e fui embora e só vi Geraldo no natal do ano seguinte, quando me revelou que a vida é frágil.E ele também. Havia saído do emprego.

Essa conversa se deu em 1995. Três anos mais tarde, já sem lembrar deste tão sofrido papo em que soube pelo Geraldo que a vida é frágil, tendo um parente próximo sofrido um acidente, fui indicado para doar uma mísera parte do meu sangue à ele. Fui no Hemocentro fazer os exames necessários para saber a sua pureza. Foi uma tortura, pois sempre tive pavor de injeção. Quando envolvia ainda agulha e sangue, aí piorava pois saia de mim, perdendo totalmente o controle e externando a lista de palavrões acumulados durante minha existência. Pra completar, a enfermeira que tirou meu sangue era mãe de uma possível namorada em fase de conquista. Não poderia dar vexame. Mas fui homenzinho e tirei meu líquido precioso. O resultado estaria pronto três dias depois.

No dia marcado, entrei no Hemocentro apressado, pois tinha que dar aula, e em meia hora precisava estar na Universidade. Me dirigi a moça pálida feito vela que sentava à mesa, por trás do balcão demonstrando no andar e na fala a minha pressa, solicitando o resultado do meu exame.

“- Qual o nome?” – disse sem olhar pra mim, numa disposição invejável.

Dei meu nome completo e ela começou a vasculhar um arquivo…nada…nada…

“- Qual o nome mesmo?”

Repeti e ela deixou de procura e foi ao telefone:

“- Doutor…”

Daí em diante não consegui ouvir mais nada, pois a atendente passou a falar baixíssimo e entre uma olhada e outra pra mim, fazia uma cara de espanto. Depois de uns dois minutos, desligou o telefone e disse:

“- Senhor Paulo, por favor, o senhor suba as escadas à direita e procure o Reginaldo no segundo andar.

Geraldo me veio à cabeça: “A vida é frágil”…

A cada degrau daquela escada minha vida foi passando…minha infância, meu pai, minha mãe. Putz! Como eu iria dizer à minha mãe que o filho dela foi contaminado e estava com AIDS? Entre lágrimas de um quase-morto e um suspiro, pensei com raiva: “- quem foi a filha da puta?”. Devia ter sido contaminado há cinco anos atrás, pelo menos, pois de lá pra cá sempre me previnia. Marta? Luzia? Ana? E o que pensariam os amigos? Teria ainda amigos? “- Rapaz, não é que o cara era bicha?” – pensariam os mais preconceituosos e desinformados. Mas não interessa, quando o boato surge…

Chorava, lembrando de minha infância, das minhas peraltices, dos meus medos. Pensava nos planos que havia feito, nos sonhos, todos interrompidos pela doença.

Lembrei dos amigos que se foram levados por ela, aos quais dei muito menos do que poderia. Pensei nas dívidas, nos momentos…ah, os momentos de alegria e tristeza…cada dor misturada a cada canção.

É, Geraldo tinha razão. A vida é frágil. Eu subindo os degraus para o segundo andar, chorando, emagrecendo a cada passo, sentindo fraqueza nas pernas, vivendo 33 anos em dois minutos.

Cheguei finalmente ao segundo andar. Fui, triste, até o balcão, o Reginaldo me esperava com olhos de total compaixão pergunta se eu sou eu mesmo. Respondo: “- Pois é, quem diria…”. Mandou eu aguardar no sofá. Quase deitei. Todos me olhavam com compaixão, como se quisessem me confortar…Após alguns demorados segundos, o funcionário me chamou e entregou o resultado do exame. A essa altura já estava cinco quilos mais magro. Abri o envelope e…

“- Como NEGATIVO????” – perguntei indignado ao funcionário.

Ele me respondeu, sorridente:

“- Seu Paulo, o senhor desculpe! É que estamos fazendo mudanças aqui, e nessa confusão, alguns exames ficaram aqui no segundo andar.”

Ainda sem acreditar, perguntei se ele tinha certeza…se não era de outro Paulo. Ele me respondeu que não, era meu mesmo…

Sai correndo, vinte anos mais moço, sorrindo para as pessoas, pensando que realmente a vida é frágil…mas também é muito boa…

©2016 – Paulo Ricardo Freire

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Tempo, tempo, tempo


Eu era um jovem sonhador. Passava as horas dos dias tocando violão e cantando as canções que tocavam no rádio. Naquele tempo, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Milton Nascimento, Caetano Veloso e por aí vai. Geração de sorte essa nossa. O ano era 1981. 

  

Eu, então com dezesseis anos de idade, via o mundo pelo viés da adolescência. Acreditava que éramos super heróis que iríamos recolucionar a cabeça da juventude fazendo música. Éramos vistos e concebidos como maconheiros, problemáticos, simplesmente porque não gostávamos de assistir aulas. Preferíamos fazer uma roda e ficar cantando. Muitos amigos, colegas de escola. Era lindo e eu me sentia artista de verdade.

Um dia, eu e meu parceiro Cléber Cruz resolvemos juntar aquela gente que ficava ao redor. Assim, não sei como, conseguimos o auditório da escola e fizemos um show. Eu, ele e um baterista que não recordo o nome. Foi nosso primeiro show. Lembro de algumas coisas. A mãe do Cléber, fã número um, lá na frente, empolgada. Lembro de algumas pessoas na platéia. Não importava. O show era pra gente. Foi muito bom.

O tempo passou, tornei-me Paulinho Kokay, meus cabelos cresceram, depois encurtaram, embranqueceram. Hoje, com 50 anos, memórias doces começam a fluir dentro de mim. Meio saudosismo, meio desejo de registra minha história. Eu era um jovem sonhador. E ainda sou.

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Pra não dizer que não falei de flores


Há flores no jardim.

Quando eu estudava no colégio, eu tinha uma colega que era representante de sala. Era antipática, metida a nerd e muito chata. Um dia, haviam pintado as paredes do corredor e a tinta estava fresca. Num rompante de leseira adolescente, revolta sem motivo, eu escrevi numa folha de papel “MOTEL” e colei ao lado da porta da nossa sala. Havia terminado a aula, não existia câmera de segurança, mas mesmo assim me descobriram e fui punido. Na verdade, fui dedurado pela talzinha, que me viu cometendo o “ato terrorista e pornográfico”, conforme o registro da ocorrência. Peguei um ódio naquela menina.

Eis que a mesma, hoje professora da mesma universidade que eu, posando de revolucionária, continua do mesmo jeito. Fala mal de todo mundo (pelas costas e cheia de códigos, pois não encara um debate “face to face” nem com nojo. Além disso, quem vê pensa ser a professora top das galáxias, a gostosa do beiradão. Poupe-me da vergonha alheia.

Adoro rosas vermelhas. No entanto, curto girassol e orquídea. Mas, sou apaixonado mesmo pelo colorido dos flamboyants.

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O dia que fui artista “de verdade”


O ano era 1989. Geraldo Azevedo, à época no auge, fez um show maravilhoso no Olímpico Clube. Eu cantava no Club da Skina e era conhecido apenas pelos que frequentavam. Fui convidado por alguém da produção, que era cliente do bar, para fazer o pré-show. Apresentei-me com Said Bastos na percussão. Nesta noite, iria cantar apenas músicas de minha autoria. O show estava atrasado. 

Quando entrei no palco, algumas vaias e gritos de “Geraldo Azevedo”. Sinceramente, aquilo quase me abalou, mas respirei fundo e comecei a cantar. Seriam seis músicas. Na segunda música, a sensação era de que estava cantando pra ninguém e pronto para receber tomates e ovos na cara. 

Na terceira música, avisei Said que modifiquei o repertório. Cantei “Porto de Lenha”, dos amigos Torrinho e Aldizio Filgueiras. Todos cantaram juntos. Foi mágico. Ao final da canção, fui ovacionado. Daí até o final, vi uma platéia interessada em ouvir aquilo que eu estava cantando. Saí do palco me sentindo um artista de “verdade”. 

Saudade de um tempo em que o público tinha disposição para ouvir o novo. Um tempo em que não tínhamos uma carreira e sim uma estrada. Éramos “amadores” porque amávamos fazer aquilo. 

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Teatro Amazonas e o menino de onze anos


Eu tinha cerca de onze anos de idade. Nunca havia entrado no Teatro Amzonas, embora passasse quase todo dia por ele. Meu tio, José Ribamar Bessa Freire, o tio Babá, acabar de voltar do exílio na França. Eis que o poeta Tiago de Melo iria fazer um recital de poesia, acompanhado pelo grande Sérgio Ricardo, no Teatro Amazonas e o tio Babá me levou junto.

Lembro da minha ansiedade e emoção. Parecia uma criança chegando em um paraue de diversões. A cada passo, me encantava mais ainda. Quando cheguei dentro do teatro, na platéia, fiquei verdaeiramente emocionado. Passei a noite toda olhando para as belezas, mais do que ao show.

Na semana seguinte soube que seria apresentad uma peça de teatro lá: “As desgraças de uma criança”, pelo grupo de teatro da Aliança Francesa. Passei a semana lavando carro, recolhendo garrafa, pedindo dos tios. Juntei o dinheiro do ingresso e fui novamente. E na outra semana de novo. Estava realmente encantado.

Aquela empolgação toda me fez escrever aos 12 anos o roteiro de uma peça infantil: “Aventurad na floresta”. O argumeno (sinopse da história) foi criada pelo meu irmão precoce, Sergio Freire,mentão com nove anos. Criei com amigos o Grupo Teatral de Aparecida, na igreja da paróquia do mesmo nome, e numa terça-feira, para uma platéia de parentes, nos apresentamos no palco do Teatro Amazonas. Eu tinha doze anos. Daí em diante, nunca mais parei de me “enxerir” com arte.

Voltei outras vezes ao palco do TA, como cantor, apresentando show. A última vez foi no projeto “Segundas no Palco”, nem lembro o ano. Hoje, este templo tornou-se privilégio de alguns poucos artistas. Faço cinquenta anos de vida e trinta de música. Imaginava fazer um show no Teatro Amazonas para comemorar. Mas, não faço parte do Clube do Bolinha nem sou amigo do Faraó da Cultura do Estado. Tentei todas as vias e não consegui. Mas, fica a lembrança do menino que, aos onze anos, quis ser artista porque conheceu o maior patrimônio cultural de nossa cidade.

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Andanças


bebe-andando

Por Paulo Ricardo Freire

Quando somos bebês, nosso primeiro grande desafio, depois de conseguirmos sentar é o de andar. É um processo proporcionalmente importante e difícil que deve ser vivido e estimulado pelos pais. Por isso que muitos psicólogos desaconselham o uso de andajá. Cada conquista da criança deve ser reconhecida e estimulada pelos pais. Cada vez que ela levanta e cai de bumbum no chão tem o seu valor no momento em que ela conseguir dar os primeiros passos. E assim, continuamos pela vida toda: andando.

O tempo anda, nosso corpo anda, os sonhos andam, o pensamento, enfim, tudo. Com isso concluo que a vida é um processo de andança. E esse andar tem sempre uma meta, um foco, mesmo que muitas vezes nem saibamos disso. E, não me iludo, caminhamos sempre para frente, mesmo que andemos em círculos.

Tenho refletido sobre minha vida andante. Perto de fazer 49 anos, já andei muito e a sensação que ainda vá andar bastante, embora tente me convencer que não quero. Já fiz tatuagem, furei a orelha, comprei uma moto, troquei um fusca por um teclado. Embora nunca tenha saltado de paraquedas, descido na tirolesa, escalado montanha ou viajado para o exterior. Mas, já viajei muito (não tanto quanto gostaria) e conheci muita gente, muitos hábitos, muitas culturas. Aprendi e apreendi aquilo que me pareceu pertinente. Morei em São Paulo e lá pude entender a minha solidão, amiga e parceira desde o útero da Dona Maria Helena. Lá, compus a música “Olhos de Morcego” na qual relato esse convívio com a estética e a poética paulistana. Amo São Paulo, e daí?

Em Minas conheci a música em sua essência, na raiz. Uma das coisas boas que mineiro sabe fazer bem – além de pão de queijo e a culinária como um todo – é música. Ô gente boa pra fazer esse “trem bão”. O único festival de música que venci foi em Minas. A paisagem das montanhas, o cheiro da serra, as cidades históricas, o carisma mineiro, tudo isso me encantou e tatuou na minha alma bons sinais de Minas Gerais.

Andei pelo nordeste, pelo sul, pelo centro-oeste, conheço quase todas as capitais. Mas, ainda me encanto com os rios de minha aldeia. Tenho um elástico em meus pés amarrados, fincados como raiz aqui nessa minha cidade. Sempre que vou, não importa a distância, volto. Quanto mais longe vou, mais forte é a minha volta. É aqui que bebo na fonte. Foi aqui que pisei a primeira vez com os pés descalços na terra.

O meu futuro é incerto. O de todos nós. Sonhamos, projetamos, planejamos, desejamos… mas não sabemos. Não acho que já vi o suficiente do mundo. Falta muita coisa. Mas, ando cansado. As redes sociais potencializaram quase tudo no que diz respeito à relacionamento humano. Reverbera os carinhos, os afetos, os medos. Mas também a arrogância, a perversão, a crueldade. Além de mostrar como somos chatos quando queremos. Isso tem me cansado: as “verdades absolutas” de algumas pessoas. As maquiagens psicológicas (photoshop da alma) que alguns fazem com o objetivo de parecem especiais, únicos. Quanto mais estudo, mais me convenço que somos um poço dos desejos onde jogamos nossas moedas. Que somos um quebra cabeça montado com peças fornecidas pelas pessoas que passam pela nossa vida. E muitas vezes nem temos idéia da imagem que se formará, mas sim da imagem que desejamos. Se considerarmos a liberdade na essência, somos uma fraude.

Temos o livre-arbítrio amarrado no pecado, no medo da punição (rejeição). Nos resta andar, pra frente, contemplar as flores e as pedras do caminho. Não desperdiçar nenhum sorriso, nenhum abraço. Se nessa andança pudermos fazer o outro sorrir, já temos cumprido boa parte da nossa missão. Mesmo estando fechado em nossos casulos protetores, há sempre de se deixar um fresta para que vejamos os outros e estes nos vejam. Para que escape nossas mãos e que elas se toquem.

Continuo andando. Só isso que eu digo.

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Fóssil


Por Paulo Ricardo Freire

O coração é um músculo que os poetas insistem em resignificá-lo. Amamos com o cérebro, mas é ele quem ganha os louros. E amores e paixões são sinapses com alto poder de ação, que produzem hormônios que nos “alesam” e nos deixa vulneráveis.

Mas, nada disso importa. Sou poeta e sei que, para nós, o coração é muito mais que esse simples órgão que pulsa do lado esquerdo do peito. Ele é o sangue que circula e conduz nosso pensamento e nossa ação.

E cada nova emoção que se cria sedimenta a anterior, a transformando numa espécie de fóssil. Mas, elas estão lá, presentes, gravadas no solo nos lembrando com suas marcas tudo o que vivemos.

Às vezes a vida causa rachaduras no coração. Cada buraco aberto revela, “maestralmente” como um arqueólogo, o que ficou gravado no fundo.

No entanto, somos acolhidos, pois, ligamos passado, presente e futuro.E nos sentimos plenos e nossos espaços vazios são preenchidos. Ao final, nosso coração se torna um sítio arqueológico de emoções.

Sábio é aquele que o sabe explorar e recontar a história e, com isso, torna sua vida melhor e mais significativa.

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