blog, escola, experiência, kokay, música, memória, saudade

Tempo, tempo, tempo


Eu era um jovem sonhador. Passava as horas dos dias tocando violão e cantando as canções que tocavam no rádio. Naquele tempo, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Milton Nascimento, Caetano Veloso e por aí vai. Geração de sorte essa nossa. O ano era 1981. 

  

Eu, então com dezesseis anos de idade, via o mundo pelo viés da adolescência. Acreditava que éramos super heróis que iríamos recolucionar a cabeça da juventude fazendo música. Éramos vistos e concebidos como maconheiros, problemáticos, simplesmente porque não gostávamos de assistir aulas. Preferíamos fazer uma roda e ficar cantando. Muitos amigos, colegas de escola. Era lindo e eu me sentia artista de verdade.

Um dia, eu e meu parceiro Cléber Cruz resolvemos juntar aquela gente que ficava ao redor. Assim, não sei como, conseguimos o auditório da escola e fizemos um show. Eu, ele e um baterista que não recordo o nome. Foi nosso primeiro show. Lembro de algumas coisas. A mãe do Cléber, fã número um, lá na frente, empolgada. Lembro de algumas pessoas na platéia. Não importava. O show era pra gente. Foi muito bom.

O tempo passou, tornei-me Paulinho Kokay, meus cabelos cresceram, depois encurtaram, embranqueceram. Hoje, com 50 anos, memórias doces começam a fluir dentro de mim. Meio saudosismo, meio desejo de registra minha história. Eu era um jovem sonhador. E ainda sou.

Anúncios
Padrão
blog, cultura, experiência, kokay, manaus, memória, saudade

O dia que fui artista “de verdade”


O ano era 1989. Geraldo Azevedo, à época no auge, fez um show maravilhoso no Olímpico Clube. Eu cantava no Club da Skina e era conhecido apenas pelos que frequentavam. Fui convidado por alguém da produção, que era cliente do bar, para fazer o pré-show. Apresentei-me com Said Bastos na percussão. Nesta noite, iria cantar apenas músicas de minha autoria. O show estava atrasado. 

Quando entrei no palco, algumas vaias e gritos de “Geraldo Azevedo”. Sinceramente, aquilo quase me abalou, mas respirei fundo e comecei a cantar. Seriam seis músicas. Na segunda música, a sensação era de que estava cantando pra ninguém e pronto para receber tomates e ovos na cara. 

Na terceira música, avisei Said que modifiquei o repertório. Cantei “Porto de Lenha”, dos amigos Torrinho e Aldizio Filgueiras. Todos cantaram juntos. Foi mágico. Ao final da canção, fui ovacionado. Daí até o final, vi uma platéia interessada em ouvir aquilo que eu estava cantando. Saí do palco me sentindo um artista de “verdade”. 

Saudade de um tempo em que o público tinha disposição para ouvir o novo. Um tempo em que não tínhamos uma carreira e sim uma estrada. Éramos “amadores” porque amávamos fazer aquilo. 

Padrão
amor, família, filhos, kokay, saudade

Saudade dos filhos


Hoje é domingo e domingo é dia de saudade. Saudade dos filhos quando eram pequenos, do tempo em que eu os levava na escola, que virava o pai chato cobrando a tarefa, que me transformava em super herói e defendia o mundo na guerra de travesseiros. Saudade da confiança e da admiração por tê-los protegido da “borboleta assassina”.

Uma saudade doída dos mergulhos na piscina, da bola no corredor da casa, nos filmes infantis alugados e assistidos mil vezes comendo pipoca na sala. Saudade de ouvir as vozes mais doce chamando: “pai”. Saudade dos choros, dos sorrisos, das gargalhadas, dos farelos de biscoito pela casa, do brinquedo não guardado. Saudade de toda bagunça. Saudade da pizza domingo a noite. Saudade de filhos…

Padrão
blog, kokay, reflexão, saudade

Tristeza, pé no chão


Por Paulo Ricardo Freire

Conheço uma tristeza com cheiro de abacaxi, sou menos triste, sou mais docemente triste (Gaston Bachelard)

Tem dias que fico triste. Não é com ninguém nem com nada específico. Apenas é uma tristeza que vem e se aloja em mim, fazendo com que eu queira ficar quieto, em silêncio no meu canto. Nada a ver também com infelicidade. Ao contrário, essa tristeza é independente de eu estar feliz ou não. Por isso ela é, muitas vezes, incompreensível. Ela não me impede de achar graça, de me satisfazer com algo. Simplesmente, é uma tristeza que se aninha em mim.

Geralmente do jeito que ela chega, ela vai. Às vezes uma canção lhe traz até mim e em outras uma canção é que lhe carrega pra longe. Outras vezes é a saudade que lhe acompanha até mim. Uma saudade sem tempo ou lugar. E é a saudade sufocada pela presença que encaminha para longe de mim.

O fato é que esta tristeza necessária é que me dá o parâmetro da minha alegria. É esse momento contemplativo que serve como pano de fundo para contrastar com o meu sorriso de alegria. Essa experiência tem me feito falar menos e pensar mais. Tem me feito observar e escutar mais o que o outro diz, empaticamente, compreendendo suas razões e motivos.

Enfim, não me queixo dessa tristeza. Ela é minha companheira e parceira de composição. E respeita as pessoas importantes que eu amo e que estão ao meu redor. E quando ela é muito intensa, quase insuportável, choro em silêncio e solitário. E as lágrimas doces navegam em meus olhos, lavando minhas dores e me dando mais força para amar e viver feliz.

IMG_3222.JPG

Padrão
blog, filhos, kokay, manaus, música, saudade

O feijão e o sonho


Houve um tempo em que quis muito ser artista, sair pelo mundo cantando minhas emoções. Mas, fui pai muito cedo e sempre precisei ralar para garantir o leite das crianças. Acabei tendo que estudar outra coisa além de música, ter outra profissão que me desse garantias de poder sustentar minha família. Por isso fiz concurso em 1994 para professor da UFAM e lá estou até hoje. Não me arrependo, principalmente quando vejo as crias ganharem o mundo, cada uma com seu sonhos sendo realizados. Não é mentira que nos realizamos através dos filhos.
Jamais abandonei a música e, graças, ela nunca me abandonou também. Mas, sublimei o meu sonho de ser artista, vivendo entre o sonho e o som, entre o feijão e o sonho. Meu tempo passou e não consegui “ganhar o mundo” com a música.
Olhei essa foto de uma apresentação no 1° Festival de Verão de Maués (não lembro o ano, apenas o século: o passado) e me baixou um saudosismo. Uma saudade dos meus cabelos longos, das minhas roupas de hippie, da minha juventude. Começo a ter síndrome de abstinência de vida. Meu conselho aos jovens: se querem ganhar o mundo, ganhem. O tempo não espera pela hora certa. Só isso que eu digo.
Foto: Houve um tempo em que quis muito ser artista, sair pelo mundo cantando minhas emoções. Mas, fui pai muito cedo e sempre precisei ralar para garantir o leite das crianças. Acabei tendo que estudar outra coisa além de música, ter outra profissão que me desse garantias de poder sustentar minha família. Por isso fiz concurso em 1994 para professor da UFAM e lá estou até hoje. Não me arrependo, principalmente quando vejo as crias ganharem o mundo, cada uma com seu sonhos sendo realizados. Não é mentira que nos realizamos através dos filhos. Jamais abandonei a música e, graças, ela nunca me abandonou também. Mas, sublimei o meu sonho de ser artista, vivendo entre o sonho e o som, entre o feijão e o sonho. Meu tempo passou e não consegui "ganhar o mundo" com a música. Olhei essa foto de uma apresentação no 1° Festival de Verão de Maués (não lembro o ano, apenas o século: o passado) e me baixou um saudosismo. Uma saudade dos meus cabelos longos, das minhas roupas de hippie, da minha juventude. Começo a ter síndrome de abstinência de vida. Meu conselho aos jovens: se querem ganhar o mundo, ganhem. O tempo não espera pela hora certa. Só isso que eu digo.

 

Padrão
amor, blog, família, filhos, saudade

Saudades


Mais uma vez, despedida. Passo tempos semeando a saudade para que o reencontro seja mágico e especial. Não é fácil ficar longe de quem amamos. Ainda mais quando são filhos. Eliza administra bem, embora sua saudade seja tão grande quanto a do irmão. Pedro, o menino do sorriso lindo, quando me reencontra, me abraça e já começa a ficar triste porque eu vou embora. Por isso não me larga. Eliza, madura, menina que cresceu tendo que lidar com saudades, é mais discreta. Manifesta seu amor de várias formas, com seu jeitinho doce, seus carinhos repentinos.

Hoje foi assim. Eliza foi pra casa estudar pois tem duas provas amanhã. É o jeito que ela tem pra fugir de despedidas. O Pedro grudou em mim. Passamos a tarde juntos, brincando, conversando, morgando essa saudade louca.

À noite, saímos pra jantar, eu, Eliza e Pedro. Conversamos, rimos, contamos histórias. Tentávamos fazer o tempo parar e evitar assim que chegasse a hora da despedida. E finalmente ela chegou. Lágrimas teimosas caíram dos olhos. Uma sensação de impotência me tomou de assalto. O beijo, o abraço, o tchau, a promessa de nos vermos em breve, o compromisso de ligar amanhã. O último olhar do Pedro com os olhos cheios d’água e consigo ler seus lábios do outro lado do portão: “tchau, pai. Te amo! Pronto. A torneira abriu. Fiquei minutos chorando no carro. Mais uma vez, eu indo embora pra longe dos meus filhos. Não desejo essa dor à ninguém.
Começo a sentir uma inveja saudável daqueles que podem viver todos os dias com os seus. Aproveitem!

Valeu meus amores! Até breve! Papai ama vocês…

Padrão
amizade, blog, kokay, saudade, tristeza

Gente de verdade


Acordei com uma saudade insuportável no peito. Uma saudade sem tempo ou lugar. Na verdade, saudade da juventude, da qualidade da minha geração. De pessoas presentes e reais, de abraços e sorrisos completos e não resumidos à apenas RS. Um tempo de gargalhadas alfabéticas e não apenas de K’s repetidos. De amigos ao redor de um violão cantarolando a vida em canções. Amigos de verdade, de carne e osso não apenas de teclas e photoshop.

Onde estão as pessoas que não aparecem mais? Preferiria o aplauso real anônimo à exaltação de um amigo virtual. Trocaria meus 2000 seguidores virtuais por uma cerveja compartilhada na mesa de um bar. A internet é maravilhosa. O Facebook é uma das melhores invenções. Mas, ao mesmo tempo que nos juntou em uma grande tribo, nos aproximou as idéias, também nos afastou do abraço, do sorriso, da gargalhada e da magia que é compartilhá-los e curti-los com gente de verdade.

Nos últimos tempo, sair para tocar tem sido uma experiência angustiante. A quase certeza de que os antigos amigos não estarão lá, que as pessoas já não gostam das mesmas coisas. O cansaço vem antes de eu começar. Ando triste com isso.

Padrão