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alma, beleza, experiência, kokay, reflexão, solidão

Viver não é preciso, mas é necessário

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As sombras da madrugada


As criaturas da noite perambulam na casa do pensamento. Imagens toscas e confusas misturam-se às lembranças de um tempo de solidão. Lembro-me bem de quando ainda jovem, sonhava em desbravar o mundo com idéias e canções. Ouvia Elis Regina cantando “Como nossos pais”, dizendo que “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”. Chorava sempre que escutava sua performance. E confesso que ainda choro. Certas canções são eternas.

O tempo passou, mas as canções que eu ouvia e me fizeram sonhar com um mundo meu, ainda ecoam em mim. Sinto saudade da minha juventude, mas sem lamentar por nada. Fiz tudo o que me foi possível. E meu tempo é agora. Como a canção “Romaria”, também cantada por Elis, “descasei, joguei, investi, desisti…”.

Hoje sou um homem que acumulou juventudes. Sinto-me feliz e parcialmente realizado. Ainda que sinta uma ponta da solidão que me acompanha desde o nascimento, aprendi a lidar com ela e transformá-la em fonte de criação. Aprendi a utilizar as sombras da madrugada para acolher meus momentos de reflexão e de criação.

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Rio e correnteza


Por Paulo Ricardo Freire

As águas levam as margens
Carregadas de sonhos
A erosão atinge os alicerces
Desabando a esperança
A vida planejada se dissolve
Como se nada tivesse valido
E junto às águas do rio
Seguem as águas dos meus olhos
E aquele desejo de menino
Mais uma vez deixa o pensamento
E resta esperar por um dia de sol
E, até que a próxima chuva venha,
Tentar ser feliz de novo
Porque disso vive meu coração
De rio e correnteza
De sol e de chuva
Mas sempre com a solidão.

ⓒ 2014 – Paulinho Kokay

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De repente…


“Não pretendo ser feliz, mas verdadeiro” – NIETZSCHE

De repente a tempestade inunda o chão, levando com a enxurrada os sonhos, os planos, as dores, tudo. Qual o nome desse sentimento? Um delírio súbito, um torpor febril? De onde vem toda essa sede?

De repente o silêncio fala mais alto que as vozes que antes bradavam hinos e palavras de ordem. As flores no quintal, a roupa no varal, os versos toscos que rumavam para a ilha que se chamava felicidade. Quem pegou o doce que estava aqui?

De repente a morte, essa cínica, arrasta suas correntes, abre a geladeira e leva o que restou do chocolate amargo. E ri muito, sem parar, pois ela sabe os caminhos por onde o barco vai, à deriva muitas vezes.

De repente cantar não move mais as paixões. Como massa de bolo sem fermento, a vida murcha, perde a consistência. Não há mais nada. Não se ouve nada, nada se diz. Não há uma nota consonante, muito menos dissonante.

De repente não há mais espelho. Ele se quebrou e, mesmo colado, distorce as imagens de um real que nem sei se é real. E a vista embaçada e míope procura enxergar o resto de poesia que escorrega sob o tapete da sala.

De repente, não mais que de repente, como nas palavras do poeta, o corte dilacerante da lâmina fina acerta a veia e tudo o que há de vivo se esvai com o vento. E me calo e espero o recomeço. O eterno e velho recomeço. Resiliente é o amor por si mesmo.

E de repente olho para os lados, esquerdo, direito, em cima, embaixo. Quando entrei para a lista de desaparecidos de mim mesmo?  Eu pensei que fosse lua e eram os olhos da cobra verde. Eu pensei que era eu e era, na verdade, aquilo que restara de mim.

Resta a réstia de sol. Resta o resto de som. Resta o que sobrou da festa….

De repente…

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Casa Vazia


Por Paulo Ricardo Freire

A casa vazia, sem qualquer canção
Onde o tempo brinca de se esconder
Guarda nas paredes o meu desejo vão
De um dia contemplar o amanhecer
E à tarde acarinhar seu coração
Sem o medo de à noite lhe perder

A melancolia, sem qualquer razão
Sem pudor se finca no meu dizer
Atiça a minha sede, acorda a ilusão
E me lembra que eu preciso esquecer
Que ainda arde no meu peito a paixão
E que o beijo é o açoite do querer

Cuida do meu ser
Linda e doce criatura
Envolve o meu viver
Com sua veste pura

Sou seu, vivo poeta
Você, mimo de Deus
O alvo da minha meta
A cor dos sonhos meus

Acorda e vem me ver
Me olha e me diz
O que eu posso fazer
Pra lhe deixar feliz

©2013-Paulinho Kokay

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Madrugada acesa


POR PAULINHO KOKAY

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E mais uma vez, me vem a madrugada acesa
Feito uma bagana do dia que passou
Trazendo o vapor barato e o gosto de mar e sal
A casa quase vazia, a sala coberta do som do silêncio
Uma melodia distante e branda das criaturas da noite
É que tenho para o agora
Quando os meus olhos lacrimejarem o derradeiro som
Quando a minha paz chegar sorrateira por debaixo do edredom
E perceber meu sonho lânguido adormecido, lívido
Estarei pronto para quem sabe o beijo pávulo da morte
Que virá de madrugada, no silêncio de uma canção buarqueana
E tudo será fruto das memórias do coração, da pele e da alma
Coberto de saudade daquilo que viria ser…

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Sapato velho


SAPATO VELHO (Mú Carvalho, Cláudio Nucci e Paulinho Tapajós)

Sapato VelhoO peito infla, os pensamentos se tornam poderosas armas de combate diante da infelicidade, nos transformamos em heróis velozes que atravessam o mundo para encantar a amada. Esquecemos nossas convicções, reformulamos nossos valores, esquecemos o time do coração, tudo se torna menor. Viver se torna uma arte regada de paixão e fé. Nada nos detém. E assim nos transformamos em seres poetas que transformam cada gesto, cada som, cada sorriso em pura poesia.

Depois disso, aprendemos a alimentar os sonhos, antes apenas artigo de prateleira. Não! Nossos sonhos se tornam consistentes e reais. Conseguimos ver as cores do futuro porque  nossos olhos sonhadores deixam de ser daltônicos. Assim, a alma leve flutua e o corpo se alegra e arrepia ao mínimo sopro de vento. Toda a maldade do mundo se torna frágil diante de nós. A inveja que move a amargura deixa de nos atingir. A tristeza das pessoas não mais nos contagia. Nos tornamos impermeáveis às angustias e tristezas alheias. Acreditamos estar no centro das atenções, como um deus amado e adorado, que suscita todos os motivos de admiração, cuidado e respeito. Nos tornamos ousados e arrogantes diante dos obstáculos da vida.

De repente, nos percebemos humanos e, portanto, incompletos. Nos flagramos como seres frágeis e defeituosos. Descobrimos que não somos nada disso. Somos um ser cujo destino é a morte. O herói que imaginávamos ser nunca existiu em nós, além da nossa imaginação. Que não somos o centro das atenções nem muito menos estamos comandando a periferia. Somos apenas mais um na multidão. Ao invés da flor que pleiteávamos ser, somos o espinho assustador, que causa medo. E todo medo causa o silêncio. E todo silêncio oculta as verdades. E aqueles sonhos voltam para o universo da quimera. E a certeza de um novo tempo se pulveriza em verdades fragmentadas espalhadas em doses homeopáticas.

Perdemos assim a nossa empáfia. Nossa arrogância se torna tola. Nossa estima se deita ao chão e passa a ver o mundo de baixo pra cima. Tudo perde o sentido, porque a meada se solta do fio. Não há como ter cores do futuro. As imagens do porvir são – e serão – em preto e branco. E nos perguntamos? O que sou eu? O que eu represento nisso tudo? Qual papel me cabe nessa novela sem fim? E, por fim, nos reencontramos com a solidão, velha companheira, amiga de todas as horas difíceis. Sempre dizendo que não passamos de pequenos vermes no universo maior. Que somos apenas marionetes de alguma força que brinca conosco como se fossemos bonecos. A Matrix escondida na divindade.

E assim eu sigo. Sentindo-me apenas um grão de areia em milhões. Sem passado ou futuro. Apenas um presente cruel e confuso. Apenas um frágil ser humano com os olhos assustados pelo medo de perder-se sem rumo. Um velho agarrado na corda que se rompe para não cair no precipício. Resta-me cantar para a minha alma acalentar-se. Resta-me viver cada segundo como se fosse o último. Resta-me esperar morrer antes da esperança. Resta-me a certeza de que nada é certo. A sabedoria de que nada se sabe. Resta aquecer os pés da vida, como um sapato velho.

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