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Ultimato para a suposta felicidade


Por Paulo Ricardo Freire

O ano de 2016 se finda. E que ano. Dentre as diversas coisas que aconteceram, sem dúvidas a perda de meu pai foi a mais significativa e difícil de superar. Mas, estou de olho no ano que se inicia. E algumas coisas eu preciso fazer, como um ultimato para a suposta felicidade.

No ano que se inicia buscarei me aproximar apenas de momentos e situações que me tragam alegria e alguma satisfação. Quero cultivar mais amigos reais que virtuais. Por isso, vou querer conhecer pessoalmente as pessoas que curto e acompanho nas redes sociais e que, em nenhum momento tive o privilégio de encontrar. Da mesma forma, para aquelas pessoas que me acompanham e me curtem estarei aberto e disponível para conhecê-las pessoalmente. Porque o que se leva dessa vida não são os bens materiais, mas os afetivos. Preciso me sentir gostado e curtido pelo que sou na realidade.

Quero rever velhos e bons amigos da juventude. Porque toda vez que reencontro sinto minha pele rejuvenescer e a minha doce juventude se aproxima do senhor de idade que sou. Por isso quero ser dono do meu tempo, do meu sorriso, da minha poesia, do meu cantar. Quero voltar a sonhar como quando era um menino adolescente. Porque sei que “há um menino, há um moleque morando sempre em meu coração”. Ao mesmo tempo, quero ser dono da minha velhice. Quero envelhecer em paz, tranquilo, acumulando experiências e histórias da forma mais lúdica possível.

Também quero viajar muito. Estar mais perto dos meus filhos que moram distante. Aproximar-me ainda mais dos que estão por aqui por perto. Quero ser um pai significativo e inesquecível para eles, como foi o meu para mim. Quero dar mais gargalhadas com eles.

Quero dizer mais o quanto amo as pessoas que amo. Manifestar isso com palavras, mas principalmente com gestos e atitudes. Não quero mais magoar ninguém nem ser desagradável com algo que eu tenha dito. Quero ser mais econômico nas palavras, utilizando um filtro que permita não desperdiçar o verbo. Apenas dizer coisas construtivas e relevantes. Com um pouquinho de humor e sarcasmo, é claro, para não ficar chato.

Quero cuidar da minha mãe, retribuindo tudo o que ela fez por mim e meus irmãos, e pelos seus netos. Quero aproveitar cada segundo ao seu lado, como uma forma simbólica de retorno ao útero. Quero passar minhas mãos em seus cabelos brancos e deitar em seu colo.

Quero ser um bom professor, responsável e coerente com o meu discurso. Quero que meus alunos me tenham como uma agradável lembrança no seu processo de formação. Quero conhecer mais as histórias de vida de nossos alunos. Quero compartilhar junto com eles tudo que estiver relacionado com sua vida acadêmica. Mas, também ser um amigo, uma voz confortadora nas questões pessoais.

Quero fazer alguma atividade voluntária como psicólogo, talvez, me envolvendo em algum projeto de alguma ONG, em centros de assistência, enfim, quero usar meu conhecimento em benefício das pessoas que não podem pagar por uma terapia.

Quero passar mais tempo ocioso, parado, ouvindo músicas “de velho” degustando um bom vinho.  Quero me encantar com Elis Regina cantando Como nossos pais, com Mercedes Sosa dando Gracias a la vida. Quero ouvir Leonard Cohen sussurrando You want it darker e Belchior me alertando que “o tempo andou mexendo com a gente”.

Quero esperar o ano novo na minha varanda, contemplando o céu em oração, sem multidão ou barulho. Apenas o som da noite quieta. Quero que o Natal seja apenas aniversário do Nosso Senhor Jesus Cristo. Que seja um momento de relembrar tudo que ele nos ensinou e tentar me tornar um homem melhor.

Quero, por fim, olhar todos os dias nos meus olhos no espelho, abrir meu melhor sorriso e perguntar: “- o que temos pra hoje?” . E sorrindo, responder a mim mesmo: “Temos vida pra ser vivida, companheiro”.

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A viagem e o céu

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Tempos estranhos


Eu gostaria de não ficar triste por ver a vida do jeito que está. Tempos estranhos que espetam nossas esperanças. Não gostaria de ficar triste com a destruição da nossa frágil democracia. Não é divertido perceber que amigos que apoiaram uma pseudomudança consolidada em um golpe se arrependeram. Outros que se arrependeram mas não dão o braço a torcer e ficam buscando argumentos sem sal. E pior, não gostaria de ver amigos que ainda acreditam que o golpe foi saudável para a democracia brasileira.

Não gostaria de ver tantos anos de luta e conquistas sociais serem jogadas no lixo por uma corja de políticos corruptos e bandidos. De me revoltar com um judiciário podre e vendido, preocupado apenas com seu bem-estar. Não gostaria de ver nosso povo tão pacífico e apático diante desta afronta à nossa dignidade.

Estou triste, sim. E minhas esperanças estão por um fio, a beira da morte. Minha revolta me faz doer a alma. Mas, tenho pulso, ainda. Enquanto eu tiver voz, eu canto, eu falo, eu bravejo. “Ninguém há de me calar. Se alguém tem de morrer, que seja pra melhorar”, murmura Vandré.

Perdoem-me, mas hoje não sinto motivos para alegrias.

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Sou pobre, com certeza


Paulo Ricardo Freire

Mais uma vez, Brasília me fez ter certeza de que sou pobre (Veja: https://blogdokokay.wordpress.com/2015/09/08/nao-sei-ser-rico/ Minha mãe me intimou a comprar as capsulas de café em uma loja de Brasília. E a bendita loja só existe em um shopping da cidade, muito chique por sinal. Ao chegar no dito cujo, já tomei um susto. Estacionamento vazio, vagas disponíveis perto da porta. Assim que entramos no prédio, um alarme sutil tocou. Não entendi, mas continuamos. Na primeira vitrine, vejo uma blusa no estilo que gosto, mas raramente encontro. Era aquela blusa. “Era”. R$ 4.560,00 na etiqueta. “- Não! Deve estar errado”. Mais uma vez, o alarme tocou. A cada caminhada, bolsa de R$ 1.000,00, vestido de R$ 1.300,00, calça de R$ 2.000,00, cinto (cintooo!) de R$ 300,00. Comecei a sentir náuseas. Avistei a loja da tal capsula de café. Entrei meio assustado, atordoado. Quando a atendente me perguntou qual o sabor do café, respondi “- um sabor de menos de R$ 20,00”. Custou R$ 17,00. Eu, tentando parecer natural, pedi duas caixas. Depois, demos um giro pelo shopping. Vi que tinha a loja da Livraria Cultura. “-Oba!”. Ao entrar, mais uma vez o alarme sutil e a impressão de uma luz de laser no meu peito. De repente, os vendedores sumiram. Fiquei algum tempo procurando e nada. Saímos (reapareceram todos os vendedores) e fomos pagar o tíquete do estacionamento. Procuramos um tempinho e não achamos o guichê para pagar. Avistei um segurança do shopping e fui até ele para perguntar onde pagar. O alarme, a luzinha de laser e eis que ele vai andando para longe de mim. Segui e perguntei:”-Amigo! por gentileza! Onde eu posso pagar o cartão de estacionamento?”. Ele me olhou dos pés à cabeça e com aquela superioridade de supervisora de caixa de supermercado, disse: “Nos terminais de autoatendimento. Não existe guichê aqui, meu senhor. É tudo automatizado”. Agradeci e fui ao robozinho de pagamento. Ficamos exatos 17 minutos. Crente que não pagaria, coloquei o cartão e vi: R$ 14,50. Opção de pagamento em débito ou crédito (parcelado em até 3 vezes). Parcelei em três vezes. Entrei no carro, errei a saída umas duas vezes morto de medo de ter que pagar mais pelas voltas extras no estacionamento. Saí em silêncio, pensando, refletindo sobre essa experiência. Volta em meia me vinha um insigh: “- Quem dá R$ 4.650,00 numa blusa? R$ 1.000,00 numa bolsa? Um país miserável, com altos índices de pobreza, com pessoas não tendo o que comer?”. Lurian me responde: “- As mulheres dos Cunhas”. Procede. “- Aquele alarme quando entramos no shopping e nas lojas era um detector de pobre. Por isso, não havia nenhum vendedor por perto”. Por fim, entendi o sorriso sarcástico da moça do café quando perguntei se naquele shopping havia Lojas Americanas.

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Saudade


Algumas das minhas escolhas, a maioria atrapalhada, culminaram em viver distante dos meus filhos. Apesar da distancia física, entretanto, tento ser um pai razoável, presente na medida do possível. Faço tudo o que posso para significar a palavra PAI para meus filhos, embora, na maioria das vezes eu sinta que estou falhando. Culpa talvez. Mas, tenho tanto amor pelas minhas crias que ultrapassa o meu limite de amor próprio. Tem momentos, como hoje, que me sinto impotente, o que verdadeiramente me entristece. Uma saudade tirana brinca em meus pensamentos e navega em minhas veias, porque também sinto falta do meu pai. Hoje eu só queria junta-los por um minuto, que fosse. 

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